‘O Olho e a Faca’ – Quando o Olho Erra o Seu Alvo

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‘O Olho e a Faca’ – Quando o Olho Erra o Seu Alvo

Por | 2019-06-25T23:08:08+00:00 25 de junho de 2019|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

O cinema “Pós-Terror” brasileiro tem nos brindado com títulos curiosos e que exploram a questão atual do trabalhador brasileiro. Tanto “Trabalhar Cansa” (2011), como o recente “A Sombra do Pai” (2018), são filmes que transitam entre o horror fantástico e o temor realístico da perda do emprego, ou de ser consumido pelo mesmo. Embora o gênero fantástico não esteja exatamente presente em “O Olho e a Faca”, há um clima de insegurança a todo momento, seja ela externa ou interna, mesmo em momentos irregulares da trama.
Dirigido por Paulo Sacramento, do filme “Riocorrente” (2013), o filme conta a história de Roberto (Rodrigo Lombardi), de “Amor em Sampa” (2015), que trabalha numa plataforma de petróleo, e passa longos meses afastado da esposa e dos dois filhos. Nos momentos de distância, inicia um relacionamento com outra mulher (Debora Nascimento) de “Rio, Eu Te Amo” (2013). Um dia, Roberto recebe uma promoção no emprego, que força-o a ficar ainda mais distante da família e dos amigos.
O primeiro ato começa de uma forma curiosa, já que Sacramento não tem a intenção de nos levar logo ao principal ponto da trama, mas sim fazer com que conheçamos melhor o dia a dia daqueles personagens que trabalham na petrolífera. Aliás, é nesse ponto que o filme ganha a sua força, pois embora não seja um suspense, ou tão pouco uma catástrofe, há sempre a sensação de que algo muito ruim poderá acontecer a qualquer momento. Isso deve ao fato desses personagens ficarem isolados no meio do oceano.
As coisas desandam quando os realizadores decidem transitar a trama para outros cenários, ao invés de manter o foco no principal local dos acontecimentos. A partir do momento em que a trama se encosta somente no personagem Roberto, se tem aquela sensação de que os roteiristas cometeram o equívoco de ir em direção ao caminho de maior trafego. Não que o ator Rodrigo Lombardi não esteja bom em sua atuação, mas até nos envolvermos emocionalmente com o seu arco dramático, isso acaba demorando um pouco.
Do segundo ao terceiro ato, se tem uma espécie de construção de um suspense psicológico, em que vemos Roberto, aos poucos, desconstruir tudo aquilo que ele havia criado ao enfrentar seus próprios demônios. Curiosamente, Sacramento cria figuras simbólicas que sintetizam essa consideração, que vai de um gato a um corvo que sempre surgem de formas misteriosas. O problema é que, por vezes, essas figuras surgem de forma gratuita e parecendo não ter muito a ver com que o personagem principal enfrenta.
O filme ganha um novo folego em sua reta final, principalmente quando testemunhamos o personagem caminhar em sua própria corda bamba pessoal. Ao se entregar para um lado poeticamente cinematográfico, Sacramento consegue se redimir diante dos altos e baixos de um longa metragem que tinha tudo para entrar na lista do cinema “Pós-Terror”. Boas intenções se tinha, mas faltou firmeza.
“O Olho e a Faca” é bom até certo ponto, mas lhe faltou foco.

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cinema Cem Anos de Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Já foi Colaborador das paginas A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura e do Jornal semanal Destaque de Esteio. Participante de 90 cursos de cinema e recentemente foi ministrante do curso Christopher Nolan: A Representação da Realidade pelo Cine Um de Porto Alegre.

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