‘Cafarnaun’ e a polêmica da natalidade

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‘Cafarnaun’ e a polêmica da natalidade

Por | 2019-02-24T19:38:03+00:00 24 de fevereiro de 2019|Análise cinematográfica, Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Cafarnaun (Capharnaün/Capernaun) (Drama);
Elenco:Zain Al Rafee, Yordanos Shiferaw, Boluwatife ‘treasure’ Bankole, Kawsar Al Haddad;Direção:Nadine Labaki; Líbano/França/EUA, 2018. 136 Min.

” Quero processar os meus pais por eu ter nascido” (roteiro do filme ‘Cafarnaun’)

Ah! A grandeza do cinema! A sétima arte, certamente, não é só entretenimento. É, possivelmente, a mais completa das artes com seus pés bem fincados nas artes cênicas, nas artes plásticas, na História, na semiótica, na antropologia, na Filosofia e por aí vai. Mas, seu papel político como veículo de massa é de suma importância para fomentar discussões sobre assuntos polêmicos, que não seriam bem vindos em uma roda de bar sem que alguém os tenha provocado; para fustigar construções de conceitos engessados, seja pela cultura, seja pela religião, seja pelo imaginário coletivo, que já não fazem mais sentido em nosso tempo. E “Cafarnaun” é fora da curva quando aborda nascer sem condições de sobrevivência. E a melhor forma de pôr isso como protesto válido e premente é pô-lo na boca de uma criança. E Nadine Labaki fez isso de uma forma contundente, doída, cruel e real, depois de mostrar um calvário de sofrimento e de miséria com poucos diálogos e muita imagem.

O longa dessa libanesa ousada e corajosa concorre aos Oscar de melhor filme estrangeiro na edição de 2019, a segunda indicação do Líbano ao prêmio. “Cafarnaun” concorre com “Roma” o favorito pelo seu lobby, propaganda e premiações anteriores durante a temporada de lauréis, e que ovaciona a casa grande e o Status Quo; concorre, também, com o japonês “Assunto de Família” – um primor de roteiro relativo ao exercício de humanidade – e, ainda, com “Guerra Fria” – que evoca o questionamento sobre até onde os braços do totalitarismo se infiltra na vida pessoal dos indivíduos numa sociedade. Mas, é com o japonês “Assunto de Família” que o longa se identifica na abordagem de assuntos humanitários. “Cafarnaun” passa em brancas nuvens na temporada de premiações glamourizada da indústria cinematográfica e em burburinhos. Mas estar indicado o transforma numa ágora mundial para fazer pensar sobre a legalização do aborto, sem dizer essa palavra uma vez sequer. Isso vindo de uma obra o do Oriente médio é de aplaudir de pé.

Zain (Zain Al Rafeea) é um menino sem documentos, sem registro de existência oficial, sem idade atestada, nascido de uma família de indigentes, sujeito a toda sorte de atrocidades. O roteiro de Nadine Labaki, Jihadi Hojeily e Michelle Keserwany ( 2 mulheres e um homem) passa pelo viés da mãe que não tem humanidade por ignorância, somada a responsabilidade e o peso de dar conta da sobrevivência de uma prole imensa, que negocia o casamento de uma filha criança, por representar uma boca a menos; ao da mãe que na mesma circunstância faz tudo por um filho recém-nascido que dificulta suas possibilidades de emprego, numa situação de cidadã clandestina e que expõe o filho a traumas que jamais serão superados, independente de seu amor. Os signos imagéticos dessa realidade sugerem o tratamento similar ao de animais e coroa sua argumentação sutil com o homem-barata. Isso tudo recheado de atitudes solidariedade e de tentativa de exercício de afeto que a própria situação inviabiliza. Em termos de atuação os signos da infelicidade estão presentes na interpretação do menino Zain Al Rafeea e nos remete ao longa “Era Uma Vez na América” (1984) dirigido por Sergio Leone em que a personagem de Noodles (Robert De Niro) passa a película inteira – de quase quatro horas – sem sorrir por conta de seus sofrimentos, deixa escapar ao final um sorriso entorpecido. “Cafarnaun” nos remete, também, ao filme libanês “O Insulto” quando discute o arcabouço cultural ultrapassado que poderia ser revisto para dar conta das complexidades do cotidiano atual.

O cinema libanês, junto com o egípcio, são os que constituem o cinema no mundo árabe. Existindo desde 1920 tem em sua história de produção apenas 500 filmes em quase cem anos de História. Ou seja, muito pouco em relação a maioria dos países que compõem a indústria cinematográfica mundial. Com uma produção anual pequena, o Líbano depende de financiamento estrangeiro para a realização de seus filmes e o lucro vem com a bilheteria internacional, pois o mercado interno não dá conta. A heroína nesse contexto é a diretora Nadine Labaki, uma mulher nascida em Beirute e que tem conseguido levar sua obras para Cannes – o portal de entrada para o cinema internacional – como “Caramelo” (2007) e “E Agora, Onde Vamos?” (2011). Com “Cafarnaun” Labaki já abocanhou 22 prêmios em festivais no cenário internacional. Mas, o assunto do longa não é muito comercial, então, nas premiações da indústria a vibe não é das melhores.

Para uma produção que põe o dedo na ferida estar no Oscar – o palco da indústria mundial de Blockbuster e enlatados sem conteúdo – disponível para milhões de pessoas já é o prêmio. Ter conseguido chegar até aqui e trazer seus questionamentos através de sua narrativa inteligente e sensível para metade do planeta já é vencer. O que é a sutileza do discurso de uma mulher? Que abordagem! Que roteiro! Que direção! E, que atuação, a do menino Zain Al Rafeea. “Cafarnaun” não é um filme para se ver e esquecer, é um filme para se ter em casa, ver sempre e fazer sessões com família e amigos. É, simplesmente, inesquecível!

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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