Star Wars: Os Últimos Jedi

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Star Wars: Os Últimos Jedi

Por | 2017-12-26T21:24:49+00:00 26 de dezembro de 2017|Análise cinematográfica|0 Comentários

Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars – Episode VIII – The Last Jedi) (Ação/Aventura/Fantasia); Elenco: Daisy Ridley, Adam Driver, Mark Hamil, Carrie Fisher, Laura Dern, Benício Del Toro, Andy Serkis; Direção: Rian Johnson; USA, 2017. 152 Min.

Precisamos falar sobre Star Wars. Precisamos falar sobre a Disney. Precisamos falar sobre a expansão do império pela galáxia. “Star Wars: Os Últimos Jedi” está em sua segunda semana em cartaz e até agora arrecadou um terço do que arrecadou “Star Wars: O Despertar da Força”. Isso, em relação ao que se convencionou chamar de sucesso, principalmente, dentro de uma mesma franquia, não é dos melhores resultados.  Ainda mais no caso de Star Wars que tem fãs e adeptos inveterados, mundo afora, isso não deixa de ter significação. O que pode ter dado errado, já que estamos num modo de produção capitalista e o filme é um produto de uma franquia respeitável?  Qual pode ter sido o ruído nessa comunicação? É o que a gente vai dissecar aqui nesta análise.

A franquia Star Wars não tem só fãs, tem seguidores, quase discípulos. Entrar numa  livraria e ver o universo de textos produzidos, de livros a HQs, que esmiúçam essa história e lhes preenche os espaços com signos e simbolismos com procedência, é admirável. A saga do herói inspirado nos estudos de Joseph Campbel ( que fora professor de George Lucas) oferece um leque de possibilidades de vertentes dentro da mesma história para gente que tem hábitos culturais como o de ir ao cinema, teatro, acesso à literatura, musica etc. Logo,  não é um público alienado de tudo e muito menos ludibriável com qualquer historinha.

Falando sobre o cerne da questão entre o empreendimento e o fãs, quando a Disney comprou a Lucas Film, foi anunciada uma trilogia/sequencia bienal de Star Wars , intercalada com spin-offs, o qual “Rogue One:Uma História Star Wars” é um deles.  Os fãs mais aguerridos se preocuparam imaginando o que viria por aí. Se um renascimento a altura do que representou a franquia, ou a derrocada definitiva. Então assistir a “Star Wars: O Despertar da Força” foi de uma expectativa avassaladora. Quando o longa dirigido por J.J. Abrams estreou foi um prazer retumbante perceber o quanto se respeitou o arcabouço original e o quanto esse primeiro episódio da terceira trilogia prometia de conteúdo pela frente. A esperança realmente se renovou.

Na estreia de “Star Wars: Os Últimos Jedi” a coisa desandou, seja por que é o filme do meio, logo é uma ponte com signos apresentados para serem resignificados depois, seja porque os argumentos ficaram soltos e sem nexo. As tensões, durante a produção, ficaram por conta do falecimento da Carrie Fisher – a princesa Léia – além das perguntas que não queriam/querem calar como alguns mistérios. Por exemplo: a ligação de Rey (Daisy Ridley) e Luke Skywalker (Mark Hamil),  como seriam costuradas as questões dos Jedi aceitarem mulheres, se a ordem deixaria de ser uma religião para ser algo maior,  ainda, sobre o treinamento de Rey e outras questões que esperávamos ver respondidas ou encaminhadas com uma pitada de criticismo bem feito, como sempre foi o tom da franquia e alguma graça, que também é a sua marca registrada. O que aconteceu foi nada. As histórias dão voltas feito cão correndo atrás da cauda num pout porri de momentos cortados e misturados. A impressão que temos é a de que quiseram dar o tom de uma narrativa complexa, e não conseguiram. O filme se resume em uma cena épica da batalha entre Kylo Ren (Adam Driver) e Luke Skywalker, umas criaturinhas fofinhas (Porgs) fazendo graça, o desperdício da oportunidade de fazer uma boa despedida da princesa Léia, um questionamento superficial à indústria armamentista e ao enriquecimento através dela e ao maucaratismo, através do personagem DJ (Benício Del Toro). Abrindo um parêntese aqui, não existe crítica ao capitalismo, pois em nenhum momento se questiona meios de produção e suas relações de poder, e sim o uso da guerra para enriquecimento, o que é um recorte do modus operandi do capitalismo e não uma crítica ao sistema. O questionamento é feito de forma e superficial e  pobre, só para não dizer que não se politizou no enredo de uma franquia que já na primeira cena de todos os seus episódios questiona as co-relações de força imageticamente, sem nenhum diálogo.  Porém, a tentativa não chega aos pés do discurso do coringa em “Batman Dark Night”/2008 em frente a uma pilha de dólares na qual  ateia fogo. “Star Wars: Os Últimos Jedi” é uma repetição de si mesmo em relação a episódios da saga – O Império Contra-Ataca”/1980  e “O Retorno de Jedi”/1983 – sem a menor vergonha. Primeiro, com a tentativa de cooptação de Rey para o lado negro da força por Snoke (Andy Serkis) levada pelo Kylo Ren, numa clara repetição da tentativa de cooptação de Luke Skywalker pelo imperador levado por Darth Vader. Segundo, com o uso de alguns takes  semelhantes, como no caso do olhar de Kylo Ren para  Rey durante o discurso de cooptação do Snoke  semelhante ao de Darth Vader e Luke no mesmo episódio, até angulação é a mesma. Existem casos que a gente pode até chamar de homenagem, mas pelo andar da carruagem parece ter sido  mesmo falta de criatividade.  É interessante pontuar que, referenciar não é copiar.  O longa poderia ser resumido em um curta de 10 min com seus momentos, realmente, procedentes e significativos. E mais, poderia perder 20 min que não alteraria em nada a história e sua tatibilidade. Fora o desaforo do destino de Luke Skywalker que, ainda por cima veio acompanhado de explicações, como se o expectador fosse um bobo. Destino esse que seria mais apropriado à princesa Leia,  que pela lógica construída, deveria ser substituída por Rey nas próximas sequência, cujo caminho poderia ter sido aberto nesse episódio. Diga-se de passagem, Rey aparece muito pouco e tem uma participação diminuta, dando abertura à japinha Rose Tico (Kelly Marie Tran) que ninguém sabe quem é nem de onde veio. Outro mistério é a personagem Vice Admiral Holdo (Laura Dern) que cai de paraquedas na história e depois assume uma importância sem lógica.  Ou seja, uma decepção cavalar. O que salva é a trilha sonora do John Williams, que é simplesmente um concerto, em particular.

A Disney submete suas histórias da saga à Lucas Film Story Group,  rezado em contrato, justamente, para evitar que ela se desvirtue/desvincule do seu arcabouço original ou se contradiga. Com carta branca o diretor Rian Johnson de “Looper” (2012) e de alguns episódios de “Breaking Bad” (série de TV), que além de dirigir também roteirizou longa, não ousou em nada no avançar da história.  Ou seja, deu mais do mesmo ao público exigente de Star Wars. Em”O Despertar da Força” quem estava à frente era J. J. Abrams, ousado, respeitadíssimo e de uma criatividade e abordagem à toda prova. Por isso deu no que deu, mais de 2 bilhões de dólares em bilheteria e uma recepção calorosa à nova sequência…. em time que está ganhando não se mexe, diz o ditado popular. Agora se espera que, em pleno final de ano com vários lançamentos e de cara para o Oscar o longa se recupere e alcance pelo menos 1 bilhão de dólares (tá longe, hein?!).  E já vamos para a terceira semana em cartaz no mundo todo.

Por falar em Império, contextualizemos a Disney, que só cresce e avança galáxia afora. A multinacional americana acaba de comprar a 21st Century Fox se tornando o maior conglomerado de entretenimento do planeta com tentáculos no teatro, cinema, rádio, música, publicidade, mídia online, rede de televisão por assinatura, 14 parques temáticos, a Pixar, a Marvel, a Lucas Film e agora só falta comprar a Warner e averbar de quebra a DC Comics. Aí sim, estaremos reféns mesmo, sem ter a quem recorrer. Agora me digam se alguém com todo esse poder de fogo tem condições de criticar o capitalismo?…Não, né? Mas criticar a guerra e seu lucro para uma empresa que aposta no entretenimento… pooode!

O que dizer de “Star Wars: Os Últimos jedi”? Que arrecadou até agora um terço do que arrecadou em bilheteria “O Despertar da Força”(2015), que a argumentação é fraca,  que traz uma remetência a um  Dath Vader pirracento e imaturo e que falta criatividade e respeito a inteligência do espectador – fãs de quatro décadas de estrada – …… J.J. Abrams cadê você,  eu vim aqui só pra te ver!!! …..Pífio!

 

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

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