‘BIO – Construindo Uma Vida’ – Encruzilhadas Narrativas

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‘BIO – Construindo Uma Vida’ – Encruzilhadas Narrativas

Por | 2019-04-22T17:10:21+00:00 22 de abril de 2019|Colunistas|0 Comentários

No clássico “Rebecca – A Mulher Inesquecível” (1940) do mestre Alfred Hitchcock, a protagonista está morta e somente temos conhecimento sobre ela através das palavras dos principais personagens ligados a ela. Graças a direção engenhosa do cineasta, além da atuação eficaz de todo elenco, tínhamos um vislumbre da enigmática figura através de nossas mentes. “Bio – Construindo uma Vida” segue um caminho semelhante, onde através das palavras de personagens ligados ao protagonista temos um vislumbre de sua pessoa, mesmo quando ela nunca aparece em cena.
Dirigido por Carlos Gerbase de “Verdes Anos” (1984), o filme retrata a vida de um homem que viveu durante 110 anos. Tendo nascido em 1959 e vindo falecer no ano de 2070, acabamos conhecendo sobre ele através de depoimentos de familiares, amigos e amantes. Cada depoimento tem um significado, seja em maior ou em menor grau.
Embora o filme seja uma ficção, além de ser um falso documentário, é mais do que notório que Carlos Gerbase criou a história se inspirando em sua própria vida. É nítido, por exemplo, os depoimentos dos respectivos personagens ligados ao protagonista, cuja as suas palavras parecem extraídas das lembranças do realizador. O que torna, logicamente, o filme, uma ficção, é os seus desdobramentos, ao ponto de sr tornar quase uma ficção cientifica com relação a ligação do homem com a natureza, ou até mesmo com relação ao próprio universo.
Além do já citado “Rebecca” é notório que o cineasta buscou inspiração de filmes recentes como, por exemplo, ” A Árvore da Vida” (2011), do cineasta Terrence Malick. Porém, graças aos inúmeros depoimentos ligados ao protagonista, se cria um mosaico de informações e dos quais faz com que exijamos de nós mesmos uma atenção redobrada com relação a história. Se por um lado isso pode se tornar cansativo em alguns momentos, em outro, é interessante acompanharmos uma linha narrativa dessa forma e tão pouco vista no cinema.
Curiosamente, se consegue extrair da trama um pouco da história do nosso próprio Brasil, onde testemunhamos algumas cenas verdadeiras, principalmente dos anos 60. Infelizmente isso se perde um pouco quando a trama começa avançar rapidamente, tendo uma preocupação maior em focar nos desdobramentos da vida do protagonista. Essa aceleração acaba prejudicando a presença de talentos ilustres, como no caso da presença de Maitê Proença, mas nada que prejudique como um todo a obra.
Com um único vislumbre do rosto do protagonista, de uma forma bem inusitada e vista no último minuto da obra, “Bio – Construindo uma Vida”, é uma curiosa experiência cinematográfica, onde a sua ação não se encontra na tela, mas sim, na construção dentro de nossa cabeça.

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cinema Cem Anos de Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Já foi Colaborador das paginas A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura e do Jornal semanal Destaque de Esteio. Participante de 90 cursos de cinema e recentemente foi ministrante do curso Christopher Nolan: A Representação da Realidade pelo Cine Um de Porto Alegre.

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