Buster Keaton: humor e perfeccionismo

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Buster Keaton: humor e perfeccionismo

Por | 2018-12-20T14:03:29+00:00 20 de dezembro de 2018|Colunistas|0 Comentários

Os primórdios do cinema foi uma época em que não se tinha grandes recursos na elaboração de gêneros como, por exemplo, aventura ou ficção científica. Porém, o mago Georges Méliès usando recursos que ele mesmo usava em seus espetáculos, se tornou pioneiro ao elaborar histórias mirabolantes e inserindo nelas efeitos visuais até então inéditos para o cinema. Isso serviu de ponta pé inicial para o surgimento de cineastas que se arriscavam na elaboração de cenas, por vezes, impossíveis de serem feitas e desses pioneiros se encontra Buster Keaton.

Embora esteja ao lado dos grandes comediantes da época como, por exemplo, Charles Chaplin e Harold Lloyd, Keaton se diferenciava pela sua obsessão pelo perfeccionismo, para que as cenas não se tornassem meramente engraçadas, como também pudessem se casar com a proposta principal da obra. A proposta, aliás, não era somente nos fazer rir, como também desafiar as nossas expectativas. O resultado foi na realização de curtas e longas metragens que, na maioria dos casos, o público não estava preparado com o que seria visto na tela e se tornado obras até mesmo a frente do seu tempo.

O que torna essas obras indispensáveis para qualquer olhar cinéfilo, é o fato de Keaton ter, em alguns casos, se arriscado na execução de determinadas cenas. Pegamos, por exemplo, o seu primeiro longa metragem intitulado As Três Idades (1923). Na tentativa de saltar entre dois edifícios com uma placa de madeira tornou-se uma acrobacia ainda mais curiosa depois de um desvio quase mortal de percurso. Keaton errando a distância do teto chocou-se feio contra a parede de tijolos e caiu em uma rede de proteção que não impediu o ator de se machucar e ficar em repouso por alguns dias.

Quando Keaton viu a cena, já que os operadores de câmera recebiam instruções de nunca parar de filmar, independente dos acidentes que pudessem ocorrer, Keaton decidiu deixar o problemático salto na versão final do longa e acrescentar a seqüência em que ele cai por toldos e se agarra em um cano solto para ser arremessado por uma das janelas. O resultado impressiona até mesmo nos dias de hoje e nos faz relembrar do recente caso em que Tom Cruise quebrou o pé ao pular de um prédio para o outro no recente Missão Impossível – Efeito Fallout.

Portanto, é notório que Buster Keaton se tornou, não só um perfeccionista na realização de suas cenas, como também pioneiro ao participar delas sem ajuda de um dublê nas cenas perigosas. No meu entendimento, o cineasta/interprete queria que as cenas não provocassem somente um riso fácil, como também transmitir uma verossimilhança que nenhum outro recurso de ponta na época pudesse obter, então, o mesmo resultado. Através desse pensamento, chegamos as duas de suas maiores obras primas: Sherlock Junior (1924) e A General (1926).

No primeiro, Keaton está projetando um filme numa tela do cinema. O mesmo dorme e começa a sonhar que está se dirigindo na tela e entrando dentro dela. Aqui, Keaton usa os recursos da câmera como ninguém, ao usar imagens sobrepostas uma na outra e obtendo um resultado extraordinário. Ao vermos o próprio entrar na tela do cinema não me surpreenderia, por exemplo, se Woody Allen tivesse se inspirado em Buster Keaton na realização do seu filme A Rosa Púrpura do Cairo.

Mas sua obra prima realmente  é A General. No filme, Keaton é apaixonado por sua locomotiva chamada General, e também por Annabelle Lee (Marion Mack). Durante a Guerra da Secessão, General e Annabelle são raptados por espiões da União e Johnnie tentará salvá-las em uma aventura através da ferrovia.

Orson Welles (Cidadão Kane) jamais escondeu o seu entusiasmo com relação A General. Em sua opinião, “é o filme de guerra mais incrível já feito”, assim como afirma que “Keaton é o melhor e mais importante diretor e ator”.  Mesmo a gente estando em pleno século 21, o filme impressiona por seqüências mirabolantes, cujos planos abertos sintetizam a grandiosidade da obra como um todo e servindo de inspiração até mesmo para George Miller realizar a sua obra prima Mad Max: Estrada da Fúria.

Por ser uma obra a frente do seu tempo, A General foi um fracasso de público e crítica na época, já que ambos os casos queriam ir ao cinema para rir e não para assistir um filme sobre a Guerra Civil Americana. Infelizmente isso foi o começo de uma derrocada que faria com que sua reputação não tivesse o mesmo prestígio por quase 20 anos. Porém, a justiça tarda, mas não falha.

No ano de 1962, no festival na França, Keaton recebeu uma homenagem, onde as suas obras foram recuperadas e tendo suas versões restauradas. Entre o final dos anos 50, e o início dos anos 60, o público francês possuía um gosto cada vez mais apurado pelo cinema e enxergando em diversas obras um conteúdo autoral e do qual nem mesmo os americanos conseguiam enxergar. Esse mesmo público viu nas obras de Buster Keaton um cinema autoral a frente do seu tempo, onde os movimentos de câmera, a qualidade de fotografia, edição e montagem encantaram uma nova geração que não o conhecia até então.

Buster Keaton viria a falecer 1 de fevereiro de 1966 aos 71 anos. Antes disso ele viria a retornar em algumas produções para o cinema e programas de TV, onde ele estrelaria como ele mesmo, ou melhor, com seu personagem “o homem sério”. Desses retornos eu sempre me lembrarei com carinho de sua participação no clássico “Luzes da Ribalta”, de Charles Chaplin, onde os dois grandes mestres do cinema contracenaram juntos em uma cena inesquecível.

Buster Keaton se foi há muito tempo, mas a sua obra continuará eterna como um todo.

 

 

 

Buster Keaton revisitado: Nos dias 15 e 16 de dezembro ocorreu na Cinemateca Capitólio Petrobras de Porto Alegre o curso Buster Keaton – Gênio Esquecido da comédia, criado pelo Cine Um e ministrado pelo jornalista Christian Farias.  Atividade serviu para eu conhecer melhor esse grande gênio e do qual nunca deve ser esquecido.

 

 

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cem Anos Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Colaborador das paginas A Hora do Cinema e Cinema Sem Frescura Participante de mais de 80 cursos de cinema do Cine Um de Porto Alegre.

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