‘Climax’ – Gaspar Noé se supera

>>‘Climax’ – Gaspar Noé se supera

‘Climax’ – Gaspar Noé se supera

Por | 2019-03-09T14:07:10+00:00 9 de março de 2019|Colunistas|0 Comentários

Basta assistir a um filme de Gaspar Noé para logo nos prepararmos psicologicamente para um eventual novo filme de sua autoria. Em “Irreversível” (2004), por exemplo, o cineasta nos coloca em uma espiral infernal, onde vemos os protagonistas adentrando em um verdadeiro pesadelo e todos nós indo junto. No meu entendimento, Gaspar Noé tem o interesse de fazer uma análise sobre o lado animal do ser humano, pois uma vez que ele coloca os seus personagens se entregando aos seus instintos mais primitivos eles correm o sério risco de não obter mais retorno.
Mas se formos seguir por esse pensamento, Gaspar Noé não seria um cineasta que gosta de dar uma lição de moral com filmes politicamente incorretos? Em “Love” (2015), por exemplo, ele retrata os atos e consequências com relação ao sexo, onde o amor procura sempre um porto seguro em meio a uma realidade em que as relações podem ser resumidas ao sexo sem compromisso ou com um amor mais profundo, porém, cada vez mais raro. É aí que chegamos em “Climax”, filme em que um grupo de dançarinos se entregam, mesmo que indiretamente, a uma noite de muita dança, álcool desejos, drogas, orgias e consequências perigosas.
Basicamente são vinte e três personagens em cena, onde na abertura, por exemplo, eles expressam os seus desejos e sonhos com relação a dança e a cultura vinda da França. Gaspar Noé não tem pressa em nos apresentar sobre o que realmente está acontecendo em cena, uma vez que os créditos de abertura são jogados mais adiante, enquanto os créditos finais são logo jogados nos minutos iniciais da obra. Embora “Climax” tenha uma trama mais linear do que foi visto em “Irreversível”, ambos possuem algo muito em comum, principalmente ao colocar os personagens em meio a um pesadelo constante.
Mas, diferente do filme protagonizado por Monica Bellucci, “Climax” começa com um verdadeiro show de cores, onde os personagens esbanjam talento, sensualidade e a pratica para alcançar os seus objetivos através dos movimentos do corpo. Porém, gradualmente, cada personagem vai expressando suas opiniões, seja com relação à política, cultura e as relações humanas contemporâneas. A simetria de ambos os filmes se colide em seu ato final, onde o cineasta usa todos seus ingredientes autorais e testando os nervos de quem assiste sobre uma situação da qual mal sabemos como se concluirá.
Uma vez que os personagens acabam sucumbindo por uma misteriosa droga nas bebidas, Noé usa e abusa de sua câmera, fazendo um verdadeiro giro de 360º graus com ela, com planos sequências mirabolantes e sintetizando uma verdadeira vertigem ambulante. Os bens aventurados, poucos aliás, procuram refúgio através do contato humano, mas não pelo sexo, mas sim pelo afeto e no que parece ser o último refúgio. Já os que não lutaram para se manter nos trilhos se entregam a uma verdadeira luxuria, mutilações e o desejo de sucumbir.
Se em “Irreversível” Gaspar Noé nos diz que o tempo destrói tudo, aqui ele fortalece esse pensamento, mas com um fio de esperança em meio ao horror criado pelas atitudes humanas. É um filme que irá dividir a opinião de muitos, mas que gerará debates por um bom tempo. “Climax” é a síntese dos pensamentos de um cineasta com relação ao lado primitivo do ser humano vindo à tona e cuja as consequências se tornam desastrosas.

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cem Anos Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Colaborador das paginas A Hora do Cinema e Cinema Sem Frescura Participante de mais de 80 cursos de cinema do Cine Um de Porto Alegre.

Deixar Um Comentário