“Era Uma Vez no Oeste”: A desconstrução de um gênero.

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“Era Uma Vez no Oeste”: A desconstrução de um gênero.

Por | 2018-12-13T04:32:45+00:00 13 de dezembro de 2018|Colunistas|1 Comentário

Na cena final do clássico “Rastros do Ódio” (1956) de John Ford, o protagonista (John Wayne) está levando de volta a sua sobrinha para sua família, sendo que essa, por muitos anos, estava sendo criada por uma tribo de índios. No minuto final da obra, cada um entra pela porta da frente, sendo que o protagonista fica por último, mas optando em dar meia volta e partindo sem rumo. A cena é simbólica, já que o típico caubói racista contra o povo indígena daqueles tempos, talvez, não poderia mais ter o seu lugar naquele mundo.

John Ford havia, então, dado o seu recado, pois as fórmulas manjadas dos faroestes, que por décadas haviam sido usadas para gerar lucro para os estúdios, não poderiam continuar mais nesse mesmo formato. A previsão se confirmou quando a década de 60 chegou e o gênero estava dando os seus primeiros sinais de esgotamento. Coube um grupo de jovens diretores italianos do outro lado do mundo ressuscitar o faroeste do seu modo. O resultado, por sinal, foi o nascimento de um subgênero intitulado western spaghetti, onde o velho oeste era retratado de uma forma mais nua e crua, onde o glamour hollywoodiano, para não dizer plástico, não teria espaço para esse novo produto cinematográfico.

Dentre os cineastas italianos dessa nova leva o que mais se destacou foi Sergio Leone, já que o primeiro filme que ele viria a dirigir dentro desse subgênero, Por Um Punhado de Dólares (refilmagem não autorizada por Akira Kurosawa do seu clássico O Guarda Costas), viria a se tornar um enorme sucesso na Itália. Isso fez com que ele criasse a “trilogia dos Dólares”, da qual se encerraria com Três Homens e um Conflito, filme que, aliás, fez com que Leone se tornasse muito conhecido nos EUA. Vendo o potencial do cineasta, o estúdio Paramount convidou Leone para dirigir mais um novo faroeste, mas nem tudo começou com flores.

Após o encerramento da “trilogia dos Dólares”, o cineasta acreditava que não havia mais nada para se fazer a respeito com relação ao gênero e tinha a ambição naqueles tempos de fazer um épico com relação à construção da América. Após muita insistência vinda do estúdio o cineasta veio aceitar o convite, mas tendo a idéia de fazer com que Era uma Vez no Oeste se tornasse o primeiro capítulo de uma nova trilogia, que daria continuidade com Quando Explode a Vingança e se encerrando, então, com o projeto dos seus sonhos que viria a ser Era Uma Vez na América.

Com locações na Itália, Espanha e EUA (com o direito ao rico cenário natural de Monument Valley), Leone, não só quis fazer da produção uma homenagem de tudo o que já havia sido feito dentro do gênero western, como também desconstruí-lo. O resultado é um filme que foi contra as expectativas daqueles que foram assisti-lo, onde cada fórmula manjada apresentada na película, logo em seguida era fraturada e levando o filme a um novo rumo. Os dez minutos iniciais, aliás, não só prestam uma homenagem ao clássico Matar ou Morrer (1952) de Fred Zinnemann, como também pega o espectador desprevenido, pois começamos a simpatizar com os três misteriosos pistoleiros, mas que são logo eliminados pelo personagem harmônica (Charles Bronson) quando surge ele em cena.

Mal tendo se recuperado desses minutos iniciais, o espectador logo é apresentado a novos personagens. Uma família que, aparentemente, se prepara para uma festa para uma ocasião especial, mas que são logo massacrados por tiros vindos da mata. Com uma trilha poderosa de Ennio Morricone disparando contra os nossos ouvidos, uma criança sobrevivente do massacre testemunha o cenário de horror e dando de cara com os seus algozes que se aproximam da casa onde a família vivia.

Perfeccionista como ninguém, Leone filma de uma forma bem pensada para surpreender o espectador que assiste. A câmera se encontra atrás do assassino, para que quando ela se movimentasse e focasse o seu rosto isso provocaria, então, um efeito devastador para os olhos do público. A cena teve fortíssimo impacto no ano de 1968 para os americanos, já que o assassino não era ninguém menos que próprio Henry Fonda.

Queridinho da América naqueles tempos, Fonda havia ganhado prestigio em produções que o tornaram um astro respeitável nos filmes americanos como, por exemplo, 12 Homens e uma Sentença. Embora reticente num primeiro momento, Fonda aceitou o desafio de fazer o seu primeiro vilão de sua carreira e criando um personagem do qual ele extraiu do mais fundo de sua alma. O resultado foi tão impactante que alguns espectadores não aceitaram o astro matando uma criança indefesa, ao ponto da cena ter sido cortada quando o filme era exibido nos canais de televisão da época.

Cortes, aliás, é o que o filme mais sofreu em território americano, já que o estúdio achava a obra extensa e, por vezes, monótona. Isso criou problemas para melhor compreensão da história na época do seu lançamento, pois dentre as cenas cortadas, por exemplo, estava à primeira aparição do anti-herói Cheyenne (Jason Robards). Embora tenha ficado mais curto para os padrões que o estúdio, o filme não escapou de um relativo fracasso nos EUA, mas nem tudo estava perdido.

Em alguns países da Europa, por exemplo, o filme foi exibido com o seu corte final (2h55min) e fazendo um grande sucesso. Em Paris, o berço da 7ª arte, o filme foi exibido durante 48 meses numa sala de cinema, ao ponto dos rolos ficarem arranhados de tantas e tantas vezes o filme ter sido exibido para o público. Num país onde se nasceu o movimento cinematográfico Nouvelle vague, era mais do que natural que os franceses acolhessem o lado autoral de Sergio Leone.

Com o passar do tempo o filme foi, enfim, sendo reconhecido pelo público americano que antes o havia ignorado. Em sua total plenitude, o filme não é somente uma homenagem ao gênero, como também uma forma de dizer Adeus aos símbolos que o moldaram ao longo do seu tempo. Se John Ford foi sugestivo com relação a isso no seu clássico Rastros do Ódio, Sergio Leone optou em sua obra em ser mais explicito.

Nos minutos finais do longa, quando vemos harmônica (Bronson) testemunhar a morte de Cheyenne (Robards), a câmera logo foca a chegada do trem no cenário principal da obra. É a onda do progresso invadindo aquele território, onde a imagem do cavaleiro solitário, enfim, não teria mais lugar ao sol naquele mundo. Com a trilha sonora poderosa de Ennio Morricone, da qual simboliza o fim e o começo de uma nova era, testemunhamos Jill (Claudia Cardinali) aceitar o seu destino em ser dona daquela terra e dar água aos homens que ajudarão a erguer um novo mundo.

Cinqüenta anos já se passaram, mas Era Uma Vez no Oeste continua poderoso ao conseguir desconstruir um gênero jaz moribundo e o revigorando para novos tempos.

 

Nota: Em comemoração aos seus 50 anos do seu lançamento, o filme foi exibido no dia 11/12/18 na Sala Redenção da UFRGS para associados e não associados do Clube de Cinema de Porto Alegre.

 

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cem Anos Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Colaborador das paginas A Hora do Cinema e Cinema Sem Frescura Participante de mais de 80 cursos de cinema do Cine Um de Porto Alegre.

Um Comentário

  1. Isis Azevedo da Silveira 13 de dezembro de 2018 em 09:45 - Responder

    Otima resenha sobre o tema cinema farwest Você conseguiu fazer uma análise sobre ascenção e queda da glorificação do tema.Parabéns!

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