‘Fé Corrompida’ – No Coração da Escuridão

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‘Fé Corrompida’ – No Coração da Escuridão

Por | 2019-05-20T01:06:47+00:00 20 de maio de 2019|Colunistas|0 Comentários

Paul Schrader foi um de muitos nomes que se consagraram nos tempos da “Nova Hollywood” (1967 – 1980), não exatamente sentado na cadeira de direção e sim como roteirista de filmes que entraram para a história da sétima arte. Tanto “Taxi Drive” (1976), como “Touro Indomável” (1980), ambos de Martin Scorsese, foram filmes em que o roteirista fazia com que os seus protagonistas colocassem os seus demônios para fora e enfrentasse um mundo distorcido que eles enxergavam com os seus próprios olhos. Na cadeira de diretor, Paul Schrader coloca os ingredientes que sempre usou em seus roteiros. criou em “Fé Corrompida” uma trama sobre o homem vs capitalismo desenfreado, que pode leva-lo à sua própria destruição.
O filme conta a história de um ex-militar, e agora padre, Toller (Ethan Hawke), que sofre pela perda do filho que apoiou ao se alistar nas forças armadas. Um outro desafio começa quando ele faz amizade com a jovem paroquiana Mary (Amanda Seyfried) e seu marido, um ambientalista. Toller logo descobre segredos escondidos de sua igreja com relação às empresas poluidoras e começa a questionar o seu próprio papel.
Paul Schrader tinha uma visão muito clara com relação aos anos 70, por conta disso, criava personagens que tinham gosto de ir contra o sistema daquele período. Em “Fé Corrompida” não é muito diferente, vemos personagens atormentados diante de situações que, gradualmente, vão corroendo a realidade em que eles vivem. O padre Toller, aos poucos, percebe que é colocado em teste, uma vez que testemunha situações que os demais ignoram, mas que lhe corroem por dentro.
Embora alguns críticos tenham questionado as suas atuações ao longo do tempo, Ethan Hawke nos brinda aqui com o melhor desempenho de sua carreira. Na medida em que o seu personagem começa a questionar os males vindo de sua própria realidade, Ethan Hawke consegue a façanha de transmitir, em todas as suas expressões, um ser atormentado por dentro e que não consegue mais se manter preso à regras vindas, inclusive, da própria igreja. Ignorado no último Oscar, Ethan Hawke merecia um reconhecimento melhor, mas o tempo há de reconhece-lo.
Curiosamente, “Fé Corrompida” possui uma rara história com relação a fé e a natureza, que são temas que se encontraram distantes no cinema, mas que aqui caminham de mãos dadas e em harmonia. Claro que há sempre liberdades poéticas com relação ao tema que, aqui, soa um tanto forçadas. Porém, tudo é compensado, tanto devido atuação de Hawke, como também dos demais atores, em especial atriz Amanda Seyfried, que desde “Os Miseráveis” (2012) não atuava em filme digno de nota.
Na medida que o filme avança, o cineasta cria situações que nos faz crer que tudo se encaminhará para uma situação irreversível. Porém, os minutos finais farão muitos questionar as soluções que o cineasta e roteirista decidiu criar para que, talvez, pudesse agradar diversos públicos, seja ele conservador, ou aqueles que optam por um lado mais libertador. Um final que renderá uma roda de debates e que essa, talvez, tenha sido a intenção de Paul Schrader.
“Fé Corrompida” é uma pequena obra sobre fé e que coloca em teste a própria sanidade do homem contemporâneo diante de situações que ele próprio não consegue controlar.

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cem Anos Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Colaborador das paginas A Hora do Cinema e Cinema Sem Frescura Participante de mais de 80 cursos de cinema do Cine Um de Porto Alegre.

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