‘Green Book: o Guia’ uma lição de alteridade

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‘Green Book: o Guia’ uma lição de alteridade

Por | 2019-01-31T03:28:07+00:00 31 de janeiro de 2019|Colunistas|0 Comentários

Há tempos em que o veneno do ultraconservadorismo explode em países como o Brasil e EUA. O cinema, ao menos, nos dá lições de moral que nos emociona e nos dá esperança em meio aos tempos de incerteza. Curiosamente, em alguns casos, são histórias que vem de tempos longínquos, onde ser diferente perante uma sociedade intolerante naquele período exigia maior esforço para sobreviver no seu dia a dia. “Green Book: O Guia” é uma jornada para se conhecer perante os obstáculos de tempos mais conservadores e se dar conta que nada ainda está perdido, mesmo quando o mundo lhe diz ao contrário.


Dirigido por Peter Farrelly de “Debi & Loide” (1994) o filme se passa no ano de 1963, onde conhecemos Tony Lip (Viggo Mortensen), um tradicional brucutu ítalo-americano que leva a vida com alguns trabalhos duvidosos como trabalhar numa casa noturna barra pesada, por exemplo. Num período sem emprego, ele fica sabendo de uma vaga de motorista para um tradicional músico. É quando conhece Don Shirley (Mahershala Ali) de “Moonlight” (2016 ), um conceituado pianista, que precisa de um motorista, mas também de um assistente e segurança, uma vez que tem uma turnê marcada pelo sul dos Estados Unidos.


Logicamente o crítico da velha guarda irá comparar esse filme ao clássico “Conduzindo Miss Daisy” (1989), já que ambos os filmes possuem premissas semelhantes. Porém, a situação aqui se inverte, mas mantendo o potencial de gerar discussões sobre a questão racial que, aliás, não está somente relacionada ao povo negro, como também ao imigrante que tenta construir uma vida em território norte americano. Tony Lip, por exemplo, é um desses inúmeros descendentes de imigrantes italianos a procura de oportunidades nos EUA, mas se dando conta que é preciso se virar com o que tem para sobreviver em uma sociedade hipócrita e conservadora.


Como todo bom road movie (ou filme de estrada para os íntimos), a relação dele com Shirley vai se intensificando na medida que Tony tenta interagir através de conversas descompromissadas durante a viagem, o que se envereda para uma experiência reveladora para ambas as partes. A dupla conhece o que é sofrer preconceito na pele, mesmo quando o próprio Tony se revela um racista no princípio da história, mas descobrindo um outro lado seu que ele até então desconhecia. Shiley, por sua vez, sofre com o preconceito vindo de uma sociedade que ainda não consegue aceitar os ventos da mudança que já aconteciam naquele tempo. Porém, o próprio Shirley começa a se dar conta que ele se afastou de suas próprias raízes para ser aceito pelos brancos e em momentos em que a imagem fala por si: a cena em que ele observa trabalhadores negros do campo olhando para ele simboliza muito bem isso.


Acostumado a fazer comédias escrachadas e polêmicas ao lado do seu irmão, Peter Farrelly surpreende ao fazer uma comédia dramática cheia de sensibilidade, na qual retrata duas pessoas de realidades distintas, mas tendo algo em comum mais do que se imagina. Já tendo provado há um bom tempo que é um ator versátil, Vigo Mortensen surpreende novamente aqui, ao representar fielmente um italiano e se distanciando por completo do seu último grande desempenho que foi em “Capitão Fantástico” (2016). Já Mahershala Ali dispensa apresentações, já que suas grandes atuações, mesmo em poucos títulos até aqui, fez ele se tornar um dos grandes talentos do cinema norte americano nestes últimos tempos e o seu trabalho ao lado de Mortensen se torna o verdadeiro coração do filme.
“Green Book: O Guia” é um belíssimo road movie, onde mostra que as diferenças entre as pessoas se esvaem, uma vez que elas se prezam a se conhecer umas as outras extinguindo, por assim, a intolerância.

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cem Anos Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Colaborador das paginas A Hora do Cinema e Cinema Sem Frescura Participante de mais de 80 cursos de cinema do Cine Um de Porto Alegre.

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