‘Indicados ao Oscar de Melhor Curta de Animação 2019’

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‘Indicados ao Oscar de Melhor Curta de Animação 2019’

Por | 2019-02-22T18:01:52+00:00 22 de fevereiro de 2019|Colunistas|0 Comentários

Ninguém dá muita atenção a curtas-metragens de animação, nem quando eles concorrem ao Oscar. São vistos geralmente como entrada antes do prato principal na exibição das animações de longa-metragem em cartaz no circuito. Mas, eles existem, são trabalhosos tanto quanto qualquer outro produto audiovisual e merecem ser apreciados e degustados. O Cinema & Movimento, então, resolveu disponibilizar para seus leitores um texto de análise com cada um dos curtas-metragens de animação que concorrem ao Oscar 2019. Confira!

‘Bao’
Pixar surpreende com as suas animações profundas e divertidas e como não poderia deixar de ser, o estúdio traz novamente profundidade no curta “Bao”, a animação que foi exibida antes do longa “Os Incríveis 2” (2018). O título “Bao” faz referência ao pão chinês produzido no vapor. O curta apresenta uma senhora de feições doces cozinhando tradicionais bolinhos de massa fresca, mas um deles acaba ganhando vida e formas semelhantes à de um bebê e do qual a senhora passa a cuidar como se fosse um filho.
O curta sofreu algumas críticas um tanto que precipitadas, pois a senhora que passou a agir como mãe para o pequeno bolinho, num ato de desespero para não o perdê-lo, engole o pequeno numa cena pra lá de imprevisível. Contudo, se analisarmos mais a fundo, a animação é uma clara metáfora sobre a relação de pais e filhos que, em alguns casos, é difícil cortar o cordão umbilical durante o percurso. O curta dirigido por Domee Shi, consegue sintetizar na tela esses sentimos complexos sobre uma mãe que tem a tarefa árdua de proteger sempre o seu rebento, mesmo quando ela não enxerga que está ao mesmo tempo lhe prejudicando.
Ao vê-lo dizer Adeus e seguir a sua cruzada pelo mundo, ela entra em desespero e culminando num ato impulsivo, porém, humano. Mas o final é explicado de uma forma primorosa de que tudo que vimos era um sonho, criado através do subconsciente da protagonista por ter se sentido menosprezada. É aí que entendemos toda a metáfora com relação ao sobre pais e filhos apresentado anteriormente e do qual mostra que ambos estão certos e errados com relação aos laços maternos e dois quais merecem ser respeitados.
Um curta profundo e corajoso em sua proposta.

‘One Small Step’
produzido pelo TAIKO Estúdios, e baseado nos depoimentos de seus diretores Andrew e Bobby, o curta representa uma singela carta de amor para aqueles que buscam pelos seus sonhos, mesmo quando parece impossível alcança-los. A obra é uma síntese sobre os laços familiares, de amizades e dos quais servem como força matriz para todos que lutam pelos seus objetivos. A animação conta a história de uma pequena jovem sino-americana que tem como objetivo o sonho de ser uma astronauta e pousar na lua.
Isso acontece desde o momento em que testemunhou o lançamento de um foguete pela TV fazendo a sua imaginação disparar. Conforme os anos passam, Luna encontra vários obstáculos e dos quais tornam a realização do seu sonho algo difícil de ser alcançado. Com o tempo ela aprende que para alcançar os seus objetivos é preciso lutar por eles, mesmo quando a sua vida lhe diz ao contrário.
Além de ser visualmente belo, a pequena obra possui uma forte mensagem de fé para aqueles que sempre caminham em busca dos seus sonhos, independente de qual deles sejam. Os anos passam e ela vai perdendo aos poucos as menores coisas ao seu redor, mas que são tão significativas quanto qualquer outro grande sonho. É nesse ponto que as cores quentes dão lugar a tons mais escuros e deprimentes e sintetizando a transição do amadurecimento da protagonista perante as dores e perdas que a rodeia. No final das contas é uma mensagem para todos em seguir os seus sonhos, mas nunca se esquecer daqueles que o apoiaram e que sempre estiveram lá para lhe oferecer um ombro.
“One Small Step” e uma animação em curta-metragem com um visual deslumbrante e mesmo com a falta de diálogos é também o que lhe torna mais fantástico.

‘Comportamento Animal’
Dirigido por Alison Snowden e David Fine no Canadá, a obra foi apresentada na 26º edição do Anima Mundi no Rio de Janeiro e foi vencedor do Grande Prêmio Anima Mundi. Como de costume desde 2012, o curta vencedor do Anima Mundi recebeu a sua indicação pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para concorrer ao Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação. Nada mais do que lógico, já que o Festival é reconhecido pela exposição das artes e técnicas de animação de longa e curta metragem sendo o maior festival de animação da América latina que se tem notícia.
A trama se passa em uma sessão de terapia, onde o grupo é formado por um gato, um louva-a-deus, um passarinho, um porco, uma lesma e um gorila, que é orientado pelo Dr. Clemente, um psicoterapeuta canino. O curta-metragem mostra, de maneira bem sarcástica, que lidar com os sentimentos no dia a dia não é uma das coisas mais fáceis para ser administrada. Há uma questão sobre reflexão, reconhecimento dos seus limites e de como é bom colocar esse peso todo para fora.
A abordagem que o curta apresenta é sobre os comportamentos inconsequentes dos humanos, dos quais nós vemos todos os dias, mas que acabam provocando uma sabotagem para a pessoa e contras as outras em sua volta. Isso é bem representado no comportamento do Gorila, do qual está transbordando de agressividade, mas basta libera-la para que possa assim compreender que os problemas não são as pessoas em sua volta, mas, talvez, o que ele guarda para si.
Uma animação que provoca uma reflexão e da qual nos faz pensar com um sorriso na boca só de olhar .


‘Late Afternoon’
Dirigido por Loise Bagnall, esse curta animado produzido na Irlanda também foi apresentado na 26º edição do Anima Mundi do Rio de Janeiro. Feito com diversas paletas de cores quentes, além de leves traços que o moldam, tornam essa pequena obra algo poético e ao mesmo tempo fazendo com que nos identifiquemos facilmente com ela. A animação conta os momentos de uma senhora idosa que transita pelas suas lembranças através de objetos que lhe trazem muita saudade.
Essas memórias vindo à tona parecem frescas para a protagonista e dando a entender que, devido a idade avançada, ela havia esquecido com o tempo. O momento mais emocionante acontece em seu minuto final, onde se é revelado a verdadeira identidade de sua filha e da qual estava muito mais próxima do que ela imaginava. Uma obra sensível e que uma vez que assiste não se esquece tão cedo.

Weekends’
O curta tem um dedo da Pixar, já que o animador é Trevor jimenez e trabalha já alguns anos para o estúdio. De uma forma bem criativa, o curta retrata, por vezes de forma abstrata, as experiências do próprio Jimenez de quando ele era criança e sobre o difícil processo que ele passava com relação a separação dos seus pais.
Acompanhamos o pequeno protagonista em mudanças constantes, desde o seu ambiente do dia a dia, como também nas idas e vindas na casa de sua mãe, durante a semana e, na casa do seu pai, nos finais de semana. As cores suaves e quentes ficam transitando por momentos cuja a fotografia é forte e sombria e sintetizando os momentos complexos que Jimenez vai passando. Há então um teste psicológico em que ele vai enfrentando ao longo de seu percurso, mas que aos poucos vai vencendo e para assim conseguir vencer os ventos da mudança que vão lhe atingindo.

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cem Anos Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Colaborador das paginas A Hora do Cinema e Cinema Sem Frescura Participante de mais de 80 cursos de cinema do Cine Um de Porto Alegre.

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