‘Lembro Mais Dos Corvos’ + ‘Tea For Two’ – Quedas e Redenções

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‘Lembro Mais Dos Corvos’ + ‘Tea For Two’ – Quedas e Redenções

Por | 2019-03-02T03:40:58+00:00 2 de março de 2019|Colunistas|0 Comentários

Na minha adolescência eu tive tempos difíceis na escola, pois eu sofria bullying por eu ser mais quieto da classe e o que acabou prejudicando a minha autoestima posteriormente. Felizmente, foi graças ao cinema e por eu ter vídeo cassete em casa, que me fez esquecer das magoas do mundo real fazendo com que eu abraçasse a 7ª arte com muito amor. Portanto, não há como não se identificar com “Lembro mais dos Corvos”, onde a personagem principal se revela na frente da câmera e fazendo com que muitos cinéfilos, eu incluso, se identificasse com ela facilmente graças ao amor que ela sente pelos filmes que ela assiste.
Dirigido por Gustavo Vinagre, de “Nova Dubai” (2014), o filme transita entre a realidade e a ficção, onde o cineasta decide passar uma noite com a sua amiga Julia Katherine, atriz transexual e que já havia trabalhado com ele em algumas ocasiões. Em um único cenário, Julia começa a falar aos poucos sobre a sua infância, adolescência e de sua difícil cruzada para conseguir obter um equilíbrio na sua vida adulta. Embora com receio, a princípio, a atriz surpreende ao revelar segredos dolorosos de sua vida e revelando na frente da tela a sua real pessoa.
Gustavo Vinagre tenta ao máximo manter atriz a vontade em cena, para que ela se revele e com isso faz com que a obra ganhe contornos imprevisíveis. Aos poucos descobrimos que Julia é uma cinéfila nata e fazendo com que a obra se torne uma pequena declaração de amor a uma arte que ajuda as pessoas a ganhar uma nova vida. Para Julia, não foi uma encruzilhada fácil, principalmente em um país que ainda possui muito preconceito contra os transexuais. Além disso, Julia é uma entre muitas pessoas desse mundo que foram abusadas ao longo da vida, mas que foram aos poucos se reerguendo para obter um novo sentido na vida.
Tecnicamente, não há muitos segredos na direção de Gustavo Vinagre, embora ele consiga criar um certo clima mórbido no decorrer da obra, como se algo além do cineasta e nós observasse as reações da protagonista em cena. Curiosamente, o pássaro de estimação de Julia se torna um símbolo chave sobre a solidão e redenção da própria, pois ela é uma pessoa livre para abraçar a sua real pessoa interior, mas também se sentindo, algumas vezes, enjaulada, ao menos no decorrer dessa obra. Nos momentos finais, Julia insiste para que a câmera foque o ambiente de fora através da janela e revelando em seu íntimo o desejo em dar o seu voo mais alto.
“Lembra mais dos Corvos” é uma pequena obra sobre superação dos obstáculos, os quais não podem impedir de alcançarmos os nossos objetivos.

‘TEA FOR TWO’
Na mesma sessão de “Lembro Mais dos Corvos” tive a oportunidade de conferir o primeiro curta metragem dirigido por Julia Katherine, uma comédia dramática cheia de sensibilidade. A protagonista do filme é Silvia (Gilda Nomacce), uma cineasta que no passado teve um grande filme de sucesso, mas que hoje vive seus dias entre as suas músicas, leituras e um certo ressentimento, pois jamais conseguiu obter o mesmo sucesso do passado. Há também a questão de ela ter sido deixada por mulher, a atriz Isabel (Amanda Lyra).
No mesmo dia em que Isabel surpreende Silvia com uma declaração de amor e um pedido de retomada do relacionamento, Silvia conhece a terceira pessoa desse triângulo: sua vizinha e mulher trans Isabela (interpretada pela própria Julia Katharine). A diretora não cria somente um retrato atual sobre o papel da mulher LGBT no Brasil, como também sobre a questão da solidão em que muitos enfrentam atualmente diante das adversidades do mundo real.
Embora a questão sobre o preconceito tenha o seu destaque no decorrer do filme, Julia opta por explorar as relações humanas com total sensibilidade e retratando mulheres fortes em situações em que se deve aceitar as perdas e seguir um novo rumo na vida. A solidão se faz presente, mas a opção de independência e de se sentir-se resolvida na vida é a força matriz da obra.
“Tea For Two” tem muito a dizer sobre tempos complexos do Brasil de hoje e Julia Katherine prova ser uma ótima promessa para um cinema brasileiro mais corajoso e reflexivo.

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cinema Cem Anos de Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Já foi Colaborador das paginas A Hora do Cinema, Cinema Sem Frescura e do Jornal semanal Destaque de Esteio. Participante de 90 cursos de cinema e recentemente foi ministrante do curso Christopher Nolan: A Representação da Realidade pelo Cine Um de Porto Alegre.

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