O cinema como fomentador de identidade

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O cinema como fomentador de identidade

Por | 2019-08-15T17:20:52+00:00 15 de agosto de 2019|Colunistas|0 Comentários
Cena do filme “Jornada da vida” de Philippe Godeau estrelado por Omar Sy

Entre todas as potencialidades do cinema estão a de puxar assuntos, fomentar pensamento e reflexões sobre questões prementes em nosso cotidiano. É isso que faz “Jornada da Vida” de Philippe Godeau. Para além disso, o filme versa sobre a importância de sabermos quem somos e de onde viemos, para melhor consolidarmos nossa identidade cultural e social de uma forma terna e suave, sem desmerecer sua importância por não ser contundente.

O longa conta a história do escritor francês, afrodescendente, Seydou Tall (Omar Sy) que tendo na agenda uma participação na bienal do livro do Senegal -terra de seus ancestrais – vai a Dakar para participar do evento e, dentro dele uma noite autógrafos. Enquanto isso numa aldeia senegaleza, há 320 Km de Dakar, vive Yao (Lionel Louis Basse), um menino de 13 anos que lê livros da biblioteca de sua escola decide ir a noite de autógrafos de Seydou com o livro da biblioteca, assim que descobre que o autor estará no país.

Argumento posto, os roteirista desenvolvem essa história mostrando realidades diferentes e premiando os espectadores com valores e tradições daquele povo, conectando a um objetivo importantíssimo para qualquer ser humano que pretenda conhecer a si mesmo: a necessidade de conhecer suas origens. O cerne da argumentação do filme é a construção de identidade.

Quando abordamos o tema em artigos científicos, trabalhos acadêmicos ou através de autores eruditos que tratam do tema, nos deparamos com uma linguagem blindada, de não tão fácil acesso, com raciocínios intrincados que engendram articulações de referênciais que não fazem parte de nossas vidas cotidianas. Quando o tema é abordado no cinema ele atinge a um público muito maior, ao mesmo tempo numa sala escura com diálogos alcançáveis e argumentações construídas através do cotidiano de personagens que são como os nossos. O uso de circunstâncias e situações que todos nós conhecemos para abordar o assunto, torna a assimilação do conceito de identidade muito mais fácil, agradável, emocionante e, quiçá, mais bem consolidado em nossas redes de significações de mundo e sem pretensões acadêmicas.

“Jornada da Vida” ou “Yao” (no original) foi produzido por Omar Sy e dedicado a seu avô – consta nos créditos finais -. O roteiro foi criado por Agnès de Sacy de “A Casa de Veraneio” (2018) em conjunto com o próprio diretor do filme, Philippe Godeau, produtor de “Sr. Ninguém” (2009) e mostra a necessidade de conhecimento de nossa ancestralidade. A cidade que Seydou Tall visita é a de seu avô e possibilitou-o a conhecer um pouco de sua própria história, refletir sobre sua realidade, sobre o que realmente importa na vida. Isso tudo acompanhando um menino de 13 anos no caminho de 320 Km de volta à sua aldeia. A jornada de volta para casa não é só o caminho pelas cidades e costumes senegalezes, mas uma metáfora da própria existência com signos como as árvores milenares do caminho em que, em um dos planos, separa os costumes da mesa simbolizando aquelas tradições e o carro do outro lado simbolizando a modernidade. O cerne da argumentação é sobre o que devemos prestar atenção, àquilo que, de fato, importa, sobre como se dá o processo de apropriação, por um indivíduo, de sua própria história e que, por mais que os tempos tenham mudado, existe uma coluna vertebral que sustenta esses valores que cabem em qualquer tempo por serem característica de uma cultura, de um povo e que são possíveis de serem cultivados, como em “Steppe Man” (2012)

Quem acha que cinema é só entretenimento está fadado ao engano. É também, e junto com isso é uma ágora escura que fomenta pensamento, reflexões, desperta o senso crítico, informa, mexe com nossas emoções, refina nosso olhar para a arte, conversa conosco e apimenta nossas conversas. O cinema é uma das formas de escrita e de registro de nossas visões de mundo, de exercício daquilo que gostamos tanto – contar histórias. Se na idade da pedra o fazíamos em hieróglifos, se na oralidade, as histórias passavam de geração em geração através dos contadores de histórias como os griots; se na era da escrita o fazíamos através de pergaminhos, hoje as escrevemos com luz. Viva o cinema!

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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