O Outro lado do Vento: Um acontecimento cinematográfico atemporal.

>>O Outro lado do Vento: Um acontecimento cinematográfico atemporal.

O Outro lado do Vento: Um acontecimento cinematográfico atemporal.

Por | 2018-12-15T04:38:40+00:00 15 de dezembro de 2018|Colunistas|0 Comentários

Nos primeiros anos do cinema nem se falava no termo “cinema autoral”, já que, para a maioria dos engravatados dos estúdios, filmes são mais para entretenimento e gerar um bom lucro. Claro que, aos poucos, foram surgindo cineastas que se destacaram por cenas elaboradas, perfeccionistas e ganhando até mesmo respeito daqueles produtores que se achavam os donos do jogo. Orson Welles foi um rebelde com uma causa pessoal que emergiu em meio às engrenagens do sistema hollywoodiano e do qual fez questão de criar uma visão autoral em seus filmes, mesmo a contra gosto dos donos dos estúdios.

Quando Cidadão Kane (1941) foi lançado, Welles tinha somente 29 anos, mas parecia um veterano, ao ponto de realizar um conteúdo até mesmo imprevisível naquele momento. Além de movimentos de câmera até então inéditos naquele ano, o jovem cineasta teve a capacidade de até mesmo elaborar um início de trama que transitasse entre o documental e a ficção. A frente do seu tempo, o filme viria a ganhar somente um Oscar de melhor roteiro, mas não demorou em se tornar um dos melhores filmes de todos os tempos.

Porém, Welles jamais teve novamente uma liberdade na realização de suas obras, ao ponto de sempre brigar com os produtores e gerando danos irreversíveis. A Dama de Xangai (1947), por exemplo, foi um fracasso na época do seu lançamento, mas se tornando melhor apreciado nos anos seguintes. E se por um lado o 3º Homem (1949) ele se destacou somente pela sua bela atuação, A Marca da Maldade (1958) ele voltaria a ter o vislumbre do gosto de realizar uma obra prima, mesmo tendo as famigeradas desavenças com os produtores na área.

Após anos vivendo na Europa e longe da ditadura do sistema hollywoodiano, Orson Wells embarcaria no seu mais complexo projeto no início dos anos 70, intitulado O Outro lado do Vento, mas do qual ele próprio jamais iria ver a sua obra ser lançada nos cinemas. Com um tempo de produção de um total de seis anos, o cineasta levou mais um par de anos durante a sua pós-produção e tendo obtido na montagem somente 40 minutos de projeção. Há quem diga que ele rodou mais de 100 horas de filme, mas nunca estando satisfeito com o que ele via e despertando a ira dos produtores.

Iniciou-se uma disputa legal pelos direitos do projeto, o que forçou Welles em armazenar todo o material bruto num cofre em Paris e o filme, enfim, acabou sendo esquecido. Orson Welles viria a morrer em 10 de outubro de 1985 e acreditando que For Fake – Verdades e Mentiras (1974) seria a sua última obra a ser lançada no cinema. Porém, a justiça tarda, mas não falha.

A toda poderosa Netflix viria a conseguir os direitos de exibição do filme em sua plataforma. Com 100 horas de material farto, os produtores obtiveram ainda os 40 minutos de montagem que o próprio Welles havia feito. No total, o filme acabou sendo lançado na plataforma com um corte final de 2h02min e, para alguns, foi o mais próximo da visão que o cineasta queria obter para o seu projeto.

Verdade seja dita: O Outro lado do Vento é tão complexo quanto à maneira em que ele foi desenvolvido. Se formos simplificar, o filme acompanha um dia da vida do cineasta J.J. Jake Hannaford (John Huston) e que embora tenha grande talento, ao mesmo tempo, enfrenta problemas para concluir seu último projeto, “O Outro Lado do Vento”, devido ao abandono repentino do protagonista, John Dale (Robert Random). Com o orçamento estourado e a pressão de executivos de Hollywood, Hannaford comemora seu aniversário em meio a amigos e detratores, exibindo aos presentes o que já filmou até aquele preciso momento.

Observasse aqui, então, que estamos diante de uma obra que transita entre a ficção e o real, já que o cineasta da trama é, obviamente, o alter ego de Orson Welles. Porém, o filme vai muito mais além, pois os minutos iniciais, por exemplo, remete os primeiros minutos de Cidadão Kane, onde o teor documental surpreende pela sua verossimilhança e demonstrando uma total segurança com a sua câmera. Câmeras, aliás, é o que mais se vê no decorrer do filme, já que há repórteres, jornalistas e paparazzis surgindo a todo o momento ao querer fazer um trabalho sobre o cineasta e a sua cria.

Isso faz com que a nossa atenção fique redobrada, já que são tantos acontecimentos que ficam acontecendo na tela que corremos um sério risco de nos perdemos em meio às diversas cenas. Com uma montagem frenética, o filme também transita numa fotografia em preto e branco com as cores quentes dos tempos dos anos 70. Mas o ápice dessa salada cinematográfica é que estamos realmente diante de um filme dentro de um filme e do qual sintetiza toda a calamidade que foi para a realização dessa produção.

Pegando carona com o movimento da Nova Hollywood, Orson Welles parece querer agir como um jovem cineasta daquele tempo, do qual está mais interessado em fazer uma obra experimental do que tendo a intenção de concluí-la como um todo. Isso é perceptível quando dois personagens, por exemplo, estão analisando o filme do cineasta J.J. Jake Hannaford e chegando a conclusão de que os rolos de filme parecem estar fora de ordem. É aí que alguém dispara….”isso importa?”

Depois de anos sofrendo nas mãos do sistema hollywoodiano, Orson Welles, talvez, estaria pouco interessado em apresentar uma trama linear e previsível, mas sim a moldando para se fazer uma forte crítica a própria maquina do entretenimento. Isso é perceptível na própria figura J.J. Jake Hannaford, que mais parece estar interessado em brincar contra aqueles que sempre lhe sugaram do que entregar um projeto propriamente dito. Os derradeiros minutos finais nos faz a gente se dar conta de que a trama, enfim, é o próprio Welles nos dizendo que temos a livre espontânea vontade de amar ou odiar a sua obra, pois uma vez concluída a gestação cabe o tempo julgar se toda essa encruzilhada foi realmente necessária.

O Outro lado do Vento é o exemplo de como Orson Welles era o típico rei fora do jogo de xadrez e nós temos mais do que agradecer.

 

NOTA: Em exibição na Netflix.

 

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cem Anos Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Colaborador das paginas A Hora do Cinema e Cinema Sem Frescura Participante de mais de 80 cursos de cinema do Cine Um de Porto Alegre.

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