‘Rindo à Toa’ – Humor Sem Limites

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‘Rindo à Toa’ – Humor Sem Limites

Por | 2019-06-04T11:49:32+00:00 4 de junho de 2019|Colunistas|0 Comentários

Dirigido por Cláudio Manoel, Alvaro Campos e Alé Braga, o documentário “Tá Rindo de que? – Humor e Ditadura” nos levou aos tempos de chumbo, onde testemunhávamos talentos corajosos do humor de diversas áreas e que nos fazia rir em tempos de incertezas. Aconteceu, então, a redemocratização e esses mesmos talentos tiveram a liberdade para fazer piadas para gregos e troianos. “Rindo à Toa – Humor Sem Limites” dá continuidade aqueles fatos, ao mostrar um tempo em que a liberdade de expressão gerou um humor politicamente incorreto, irresistível mas, hoje, tendo que se adequar aos novos tempos.
Realizado pelos mesmos cineastas do documentário anterior, a obra tem como ponto de partida os sucessores de “O Pasquim” nas bancas: “Planeta Diário”, “Casseta Popular”, e as publicações da Circo Editorial (Glauco, Laerte, Angeli); passa pela música com as bandas irreverentes que traziam a comédia em seu DNA como a “Blitz” e “Premeditando o Breque”. O surgimento da onda do besteirol no teatro e os programas de TV como o pioneiro “Armação Ilimitada”, “TV Pirata” e “Casseta & Planeta” chegando até “Sai de Baixo” e “Hermes e Renato”.
O documentário em si se torna sedutor ao abrir a caixa de Pandora e revelar um humor diferente se comparado ao de hoje. Sai de cena aquele humor em que se encontrava uma crítica social nas entrelinhas nos tempos da ditadura, e entra o humor mais explícito, crítico e, no qual não se perdoava ninguém pelo seu caminho. São tempos em que, por exemplo, as piadas sexuais eram ditas a luz do dia, não havendo horários restritivos e podendo soltar a imaginação criativa de muitos daquele período.
Curiosamente, se olharmos para trás, é impressionante como alguns programas humorísticos estavam à frente do seu tempo e que, até hoje, são lembrados com muito carinho. Bom exemplo disso é o programa “TV Pirata”, que começou de uma forma tímida, mas logo se firmou como um dos programas mais criativos da época. Com seu humor embasado no nonsense e na sátira, executado por uma equipe de roteiristas que incluía Pedro Cardoso, Luís Fernando Veríssimo, os quadrinistas Laerte e Glauco, e integrantes do “Planeta Diário” e da “Casseta Popular”. Que , mais tarde, viriam formar o “Casseta & Planeta”.
Aliás, os integrantes do extinto “Casseta e Planeta” são os porta vozes do documentário. Por eles nos relembramos de um humor politicamente incorreto e, cuja irreverência teria seus últimos suspiros na tv aberta com o programa “Sai de Baixo”. É claro que, fica a pergunta sobre o porquê esse humor ter acabado.
Como um todo, o documentário serve como exemplo sobre a transição pela qual o Brasil passava. Na qual a mordaça invisível dos mais de vinte anos de Ditadura deixava resquícios e, que era preciso colocar tudo para fora. É claro que todo começo tem o seu fim e, aos poucos, essa libertinagem humorística acabou se desgastando no seu devido tempo. Isso se deve, por exemplo, a um período em que o Brasil se encontrava em uma espécie de acomodação, pois o material farto que servia de alvo para os humoristas, havia saído de cena dando lugar definitivo ao politicamente correto. Em tempos de hoje, em que os retrocessos governamentais surgem a torto e a direito, não seria espantoso se esse humor politicamente incorreto ressurgisse em cena. Porém, se antes era fácil fazer piadas contra as comunidades negras, LGBT e até mesmo religiosas, hoje os humoristas se encontram em um impasse tendo até receio de fazer determinadas piadas que possam ofender determinadas pessoas. Se a velha guarda humorística não consegue dar conta do recado nestes novos tempos, ao menos, a nova leva de talentos, talvez, consiga fazer a gente rir neste período nebuloso, do qual existe agora um material bem farto de inspiração, pois basta ver as notícias cotidianas.
“Rindo à Toa – Humor Sem Limites” fala sobre tempos em que o humor não tinha dó, mas que hoje busca por sua identidade numa realidade em que é preciso rir para não chorar.

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cem Anos Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Colaborador das paginas A Hora do Cinema e Cinema Sem Frescura Participante de mais de 80 cursos de cinema do Cine Um de Porto Alegre.

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