‘Tá Rindo de quê?’ – Humor e ditadura

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‘Tá Rindo de quê?’ – Humor e ditadura

Por | 2019-04-10T13:40:34+00:00 10 de abril de 2019|Colunistas|0 Comentários
Humorista Jaguar

Após o golpe de 1964 a área artística do humor foi perseguida e a liberdade de expressão foi reprimida de uma forma muito violenta. Felizmente, também existiu grandes talentos que demonstraram uma proeza mais do que eficaz de contornar esses percalços, através de um humor subliminar, porém, sutil. “Tá Rindo de que? – Humor e Ditadura” relembra a coragem desses talentos em tempos de chumbo grosso.
Dirigido por Cláudio Manoel, Alvaro Campos e Alé Braga, o documentário reúne inúmeros talentos, das áreas do cinema, da música e do desenho. Dos depoimentos se criou vários relatos sobre o dia a dia de um tempo em que dar a sua opinião poderia lhe custar bastante caro, mas também não se rendiam perante os obstáculos. O documentário, portanto, se torna uma viagem no tempo, em tempos em que um humor politicamente incorreto era a única forma de fugir de uma realidade opressora.
Embora todos saibam que o Brasil sofreu uma feroz censura contra a imprensa e a área cultural, é de se surpreender como certos talentos bateram de frente perante uma realidade que poderia até mesmo tirar as suas vidas. Os primeiros minutos da obra, aliás, são mostrados tirinhas de jornais da época onde mostra toda a criatividade de alguns desenhistas e como eles usavam piadas subliminares muito inteligentes. Uma prova de criatividade e coragem e que, mesmo vistas nos dias de hoje, surpreende.
É claro que o cinema em si não poderia ficar de fora, sendo que cineastas e roteiristas tiveram que mudar o comportamento em termos de ideias e de como poderiam agradar os censores da época. O resultado foi o surgimento de um humor pastelão, com o teor sexual que foi a fase da “Pornochanchada”, da qual as pessoas iam ao cinema para assistir cenas de sexo e moldadas com pitadas de humor que, vistas hoje, são politicamente incorretas. Infelizmente os diretores se esqueceram de explorar o fato que nessa fase muitos realizadores criaram piadas criativas contra os tempos da ditadura, sendo algo que não foi esquecido no documentário “Histórias que nosso cinema(não)contava” (2018).
Esse tipo de humor, aliás, acabou se estendendo para TV, rendendo programas como, por exemplo, “Viva Gordo” “A Praça é Nossa” e “Os Trapalhões”. É nesses momentos em que o documentário revela um humor da época muito machista, onde as mulheres eram usadas em piadas sexuais pesadas e que se fossem pensadas para serem vistas hoje seriam muito polêmicas. Não nego que eu me divertia muito com esses programas quando eu era pequeno, principalmente com “Os Trapalhões”, mas convenhamos, não tínhamos respeito por nós mesmos.
Com o final da ditadura, o humor politicamente incorreto prosseguiu, mas gradualmente mudando conforme as opiniões públicas foram crescendo. Se antes o humor sofria nas mãos da ditadura, hoje o humor sofre nas mãos do politicamente correto, mas com uma boa razão logicamente. O que falta talvez é mais criatividade por parte dos humoristas e quem sabe retomar com um humor ácido, inteligente e contra esse governo atual que é verdadeiramente opressor.
“Tá Rindo de quê?- Humor e ditadura” é um mosaico de informações sobre um período em que riamos de nossas próprias tragédias, mesmo quando a piada era camuflada, porém, criativa.

Sobre o Autor:

Crítico de cinema do blog Cem Anos Luz. Associado do Clube de Cinema de Porto Alegre. Colaborador das paginas A Hora do Cinema e Cinema Sem Frescura Participante de mais de 80 cursos de cinema do Cine Um de Porto Alegre.

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