‘A Lenda de Golem’ – Folclore judaico no circuito

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‘A Lenda de Golem’ – Folclore judaico no circuito

Por | 2019-06-13T10:29:29+00:00 12 de junho de 2019|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

A Lenda de Golem (The Golem); (Terror); Elenco: Hani Furstenberg, Konstantin Anikenko, Ishai Golan; Direção: Doron Paz, Yoav Paz; Israel, 2019. 95 Min.

Quais histórias são mais assustadoras do que aquelas que se baseiam na mentalidade de uma época e tem os dois pés fincados em crenças, sejam religiosas ou culturais? Pois é, assim como “A Bruxa”(2015), que se ancora na mentalidade e religiosidade dos colonos americanos do século XVI, “A Lenda de Golem” bebe na mesma fonte. Tem inspiração numa lenda filosófico-religiosa da Cabala judaica do século XVII em um povoado judaico da Lituânia. Publicado pela primeira vez em 1847 numa série de contos judaicos (Galerie Der Sppurim) editorado pela Wolf Pacheles de Praga, vem agora povoar nosso imaginário com um naco da cultura judaica em forma de terror dirigido pelos irmãos Paz (Doron e Yoav). A primeira versão para o cinema consta de 1920 dirigido por Paul Wegener e foi considerado uma obra-prima do expressionismo alemão. Mas, nada como uma abordagem feita pelos donos da casa. Os irmãos israelenses, que também dirigiram o longa “JeruZalém” (2015) mandaram muito bem na versão 2018.

Golem é um ser místico pertencentes às histórias da Cabala judaica que pode ser criado a partir do barro através de forças divinas, assim como Adão, tendo como veículo alguém santo, puro ou sábio nas questões do sagrado. Na versão original, o criador era um rabino, nessa uma mãe perspicaz em luto pelo seu filho. O cerne da questão da criação do Golem na cultura judaica é a proteção do povo judeu do anti-semitismo. O longa, além versar sobre isso, traz também, questões sobre o poder das mulheres, sua fortaleza, fraquezas e perfídia; sobre o paradoxo das ações e pensamentos da raça humana; sobre a diferença entre justiça e vingança; sobre o deslumbramento pelo desconhecido; sobre a perspicácia da sedução pelo afeto; sobre o outro como extensão de si; sobre os equívocos da interpretação da realidade por um coletivo; sobre a cultura que passa silenciosamente de geração em geração. “A Lenda de Golem”é uma ode à sabedoria com mel e fel. O viés filosófico é a cara da sobrevivência da cultura milenar judaica – a última cena é tudo isso. Ou seja, é um filme de terror, mas tem essa riqueza toda.

Quanto aos aspectos técnicos, a atuação de Hani Furstenberg de “Planeta Solitário” (2011) é de uma linguagem corporal brilhante e muito bem desenhada. Mas o que se destaca mesmo é a trilha sonora assinada por Tal Yardeni e executada pela Orquestra Sinfônica de Raanana – não é pouca coisa, não – e o roteiro de Ariel Cohen de “Take Mama” (2011). “A Lenda de Golem” é uma mistura de “A Bruxa” com “Maligno” (2019) e não deixa a desejar.

Esqueça suas preconceituações sobre o gênero e vá assistir a esse terror israelense que, este ano, só não perde para “Nós” de Jordan Peele e Boa sessão!

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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