‘Aqueles que Ficaram’ o outro lado da História

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‘Aqueles que Ficaram’ o outro lado da História

Por | 2019-12-29T19:12:10+00:00 28 de dezembro de 2019|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Aqueles que Ficaram (Akik Maradtak/Those Who Remained) (Drama); Elenco: Abigé Szõke, Károly Hajduk, Mari Nagy; Direção: Barnabás Tóth; Hungri, 2019. 83 Min

Estamos acostumados a ver filmes e ouvir histórias sobre imigrantes fugidos da Europa na Segunda Guerra Mundial, para vários lugares do mundo, muito principalmente para a América: “Era uma Vez em Nova York” (2013); “Era Uma Vez na América” (1984) e tantos outros que contam histórias de quem escolheu recomeçar suas vidas do zero em algum outro lugar tentando esquecer-se das atrocidades da guerra. Mas, e aqueles que ficaram? Os que decidiram continuar? Quem conta suas histórias? Como viveram? Pelo que passaram? O que aconteceu? cogitar essa possibilidade de abordagem não é tão comum. O representante da Hungria para o Oscar 2020 ousou. Barnabás Tóth conta a história de pessoas que ficaram na Hungria pós-guerra ocupada pela, então, União Soviética. Judeus que tiveram seus familiares mortos em campos de concentração e que tiveram que se reconstruir em termos de relações afetivas e familiares. E esse é o viés do filme “Aqueles que Ficaram”.

Klára (Abigél Szõke) perdeu seu pai num campo de concentração, mas ainda acredita que ele vive. Mora com uma senhora, Olgi (Mari Nagy) que perdera seu marido. Conhece o médico Aladar (Károly Hajduk) que perdera sua família inteira. Esse núcleo é representativo das dores de todos os personagens daquela cidade fosca e nublada da Hungria de 1945. Todos perderam alguém, todos se sentem sós, todos estão sem suporte emocional e tentam se conectar da forma com a qual podem e sabem. Criando laços, vínculos, reconstruindo famílias com todos os equívocos emocionais que advém deste contexto. A abordagem do diretor Barnabás Tóth e da roteirista Klára Muhi foi apresentar o caminho pela busca de afeto e sobre como as conexões se dão, sobre como as carências, as necessidades sociais são difíceis. O roteiro passeia pelos caminhos tortuosos num regime de exceção e de recrudescimento das liberdades individuais neste contexto com maestria.

O longa é baseado no livro homônimo da psicóloga Zsuza F. Várkonyi que retrata toda uma reconstrução psicológica , toda uma saga de reajustamento a uma realidade social e política nunca antes vivida, de reconstrução de laços com pessoas por afinidade/necessidades para formar um núcleo de proteção e de afeto necessários à sobrevivência e à felicidade de um ser humano. “Akik Maradak” no original) é uma saga de sofrimento silencioso muito bem interpretado e dirigido, com uma fotografia fria e triste.

Barnabás Tóth está em seu primeiro longa-metragem como diretor. Ele é oriundo de séries de TV e curta-metragens. Mas, sua abordagem pouco comum o conferiram o privilégio de representar seu país na corrida ao oscar 2020. Que diga-se de passagem tem um queda por filmes que tenham em seu contexto uma conexão com o holocausto, vide “Ida” (2013), “Filho de Saul” (2015), “A Lista de Schindler” (1993)…. Mas, vai ser necessário mais que uma abordagem para ser escolhido para a lista finalíssima e levar o prêmio, pois a concorrência esta de pesada e com “Parasita” – Coréia do Sul – como o queridinho do mundo inteiro.

Em suma, o filme da Hungria é uma obra cinematográfica de iniciante que não tem muitas chances na premiação de 2020. Mas, estar na shortlist já é um alcançar um nível de visibilidade que poucos filmes conseguiriam se não fosse essa vitrine mundial. Independente disso, o filme vale a apena ser visto e apreciado pela sua qualidade cinematográfica e pela sua abordagem. Essa nos tira do lugar comum e nos faz refletir sobre a ponto de vista daqueles que não decidem com a maioria. “Aqueles que Ficaram” é um excelente personagem conceitual para pensar o outro lado da moeda de qualquer questão que a vida nos traga. Vale o ingresso!


Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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