>>‘As Boas Maneiras’: filme de terror nacional com contexto social

‘As Boas Maneiras’: filme de terror nacional com contexto social

Por | 2018-06-16T19:48:28+00:00 30 de maio de 2018|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

As Boas Maneiras (Les Bonnes Manières/Good Manners) (Fantasia/Horror); Elenco: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo; Direção: Marco Dutra e Juliana Rojas; Brasil/França, 2017. 135 Min.

O cinema nacional tem se diversificado no que diz respeito a gênero e tem se aprimorado no quesito qualidade técnica. O exemplo disso é o longa “Quando Eu Era Vivo” (2014). Nessa mesma pegada, não por acaso, do mesmo diretor “As Boas Maneiras” entra em cartaz com uma abordagem inovadora e de cunho social. A inovação se dá no argumento: contar a história do lobisomen na fase de gestação e  infância; o cunho social fica por conta do contexto em que a história é posta: na favela e adotado por uma negra assalariada.

A versão brasileira da história do lobisomen pensa na gestação da criatura, oriunda de uma mãe classe média alta, Ana (Marjorie Estiano), que morre ao dar a luz ao bebê e na adoção deste pela empregada Clara (Isabél Zuaa) que auxiliava sua mãe durante o período. A história aborda sua saga de cuidados desde a gravidez misteriosa e sui generis até as providências a cada virada de lua cheia, as relações com os vizinhos e com os colegas de escola, num contexto bem brasileiro (comunidade e festa junina) até a perseguição por parte dos ‘cidadãos de bem’. A narrativa é um álibi perfeito para abordar as dificuldades de encaixe dos ‘diferentes’ na sociedade e a ignorância desta. O sofrimento de quem protege e de quem é protegido e o quanto a gentileza e as boas maneiras são necessárias, mas  têm seu preço neste contexto.

A obra cinematográfica conta com a direção  e roteiro de Marco Dutra de “O Silêncio do Céu” (2016) e Juliana Rojas de “Sinfonia da Necrópole” (2014). As atuações de Isabél Zuaa de “Joaquim” (2017) e de Marjorie Estiano de “Entre Irmãs” (2017) dão vida a  personagens de origens diferentes, de classes sociais diferentes e etnias diferentes, mas que se igualam naquilo que é inerente ao humano desconhecendo fronteiras convencionais. A fotografia de Rui Poças de “Zama” (2017) é magistral e foi premiada no Janela do Recife International Film Festival e no Festival do Rio. Com sua abordagem original e pensando um momento da vida do lobisomen que não é visto comumente o longa foi premiado mundo afora (segue a lista de premiações no final do texto).

Quebrando clichezões dos filmes de terror e trazendo essa proposta folclórica para a realidade e para a contemporaneidade “As Boas Maneiras” produz reações variadas durante sua exibição, da estranheza ao incômodo, do deslocamento artístico, ao perceber que terror e musical se dão as mãos numa pegada americana abrasileirada, ao entendimento da crítica social embutida no longa no seu grande fin, possivelmente, nos dizendo que se o lobisomen fosse brasileiro e pobre não passaria do Ensino Fundamental. Para quem curte uma abordagem inusitada é uma ótima pedida. A produção franco brasileira “As boas Maneiras’ mostra que tem vida inteligente no gênero de terror. Sui generis e genial!

Lista de premiações de “As Boas Maneiras”:

  • Menção especial no Austin Fantastic Fest
  • Menção especial do juri no Biarritz International of Latin American Cinema
  • Menção especial no Buenos Aires International of Independent Cinema
  • Prêmio da Crítica no Gerardmer Fim Festival
  • Melhor fotografia no Janela de recife International Film Festival
  • Prêmio do público no L’Etrange Festival
  • Prêmio especial do juri em Locarno
  • Menção honrosa no Oslo Films from the South Festival
  • Prêmio FIPRESCI de melhor filme No Festival do Rio (Prêmio Félix, Petrobrás, atriz coadjuvante para Marjorie Estiano, melhor fotografia e filme na Première Brasil)
  • Menção especial para melhor atriz (Isabél Zuaa) e melhor filme no Sitges – Catalonian International Film Festival
  • Prêmio da audiência de melhor filme em Torino International gay & lesbian Film Festival
  • Melhor filme – competição internacional – no Uruguay International Film Festival
  • Melhor atriz (Isabél Zuaa) no Zinegoark Bilbao International Film Festival

 

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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