‘Assunto de Família’ e as rotas de fuga

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‘Assunto de Família’ e as rotas de fuga

Por | 2019-02-24T19:41:48+00:00 23 de fevereiro de 2019|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Assunto de Família (Shoplifters/Manbiki Kazoku)(Crime/Drama);Elenco:Lily Franky, Sajuro Andô, Kirin Kiki, Mayu Matsuoka, Jyo Kairi, Miyu Sasaki;Direção:Hirokazu Kore-eda; Japão, 2018. 121 Min.

Palma de Ouro para o Japão ” Assunto de Família” traz com competência cinematográfica, principalmente, em roteiro e atuações, e uma pitada de política, os questionamentos sobre o engessamento e a falta de flexibilidade de regras sociais no convívio em sociedade no que diz respeito as questões que os cotidianos apresentam.

Uma Senhora idosa sozinha, Hatsue (Kirin Kiki); uma menina desprezada pelos pais, Aki (Mayu Matsuoka); um casal fugindo de uma tragédia, Osamu (Lily Franky) e Nobuyo (Sakura Andô). Juntos protegem o orfão, Shota (Jyo Kairi) e a negligenciada, Yuri (Miyu Sasaki). Esse clã de pessoas machucadas pela vida vivem juntas dividindo o que podem e fazendo de tudo para sobreviver, todos vivendo à margem da sociedade. Até que um dia são descobertos por conta de um episódio imprevisto. Esse argumento é o start para o cineasta Hirokazu Kore-eda abordar aspectos intrínsecos sobre as relações humanas de acordo com as necessidades que essas possuem, dentro do contexto em estão inseridas e com aquilo que lhes acontece no emaranhado desordenado que é a vida e seus movimentos, conectando-os com o engessamento das regras sociais que não abarcam as necessidades de todos, com a falta de flexibilidade das leis que não são postas no contexto do indivíduo, mas saem da fria interpretação de quem não possui a realidade analisada e que acaba sendo injusta. Os questionamentos são coerentes, pés-no-chão, contextualizados, sem sair pela tangente. E isso transforma o filme numa saga sensacional de reflexão sobre as nossas necessidades e nossa organização social. Nossa primitividade em relativizarmos situações, aspectos, contextos etc.

O Japão tem 5 Palmas de Ouro na sua história de premiações por seu cinema e 4 Oscars de filme estrangeiro. As chances de levar a estatueta para casa dessa vez são, praticamente, nulas. Mas, se está concorrendo, ela existe. Independente disso, o que importa é que estando no principal palco do cinema mundial “Assunto de Família” ganha uma visibilidade e tanto para cumprir o seu papel de fazer refletir sobre questões muito delicadas, cheias de camadas sutis falando sobre violências cotidianas com uma sensibilidade, uma doçura que arrebata, extrapola a tela. Hirokazu Kore-eda de “O Terceiro Assassinato” – outro primor de roteiro – dirigiu e roteirizou o longa e tem no currículo 24 prêmios e mais de 80 indicações sua pegada é leve tratando de assuntos pesados, polêmicos e fortes. Kore-eda costura suas histórias com humanidade, com uma abordagem solidária, gentil, generosa tornando uma história indigesta numa saga de ternura e de inteligência. Essa abordagem subjetiva não é fácil de se conseguir numa linguagem imagética, não blindada, sem codificações, onde cada um entende o que suas redes de significações lhes diz. Kore-eda consegue ser preciso em sua transmissão e chegar a um ponto em comum em que todos,ou quase todos, entendam seu viés de abordagem.

“Shoplifters” (no original) é um filme que versa sobre o cotidiano dos desvalidos de afeto, de assistência social e o quanto a solidariedade é necessária a humanidade. A palavra é essa, NECESSÁRIA. “Assunto de Família” traz uma mensagem necessária aos nossos tempos. de desconstrução de muros, de engessamentos; de reflexões sobre a falta de flexibilidade nas leis de acordo com o contexto em que os fatos acontecem – e essa brecha, Kore-eda usa para questionar de forma brilhante. “Assunto de Família” é assunto para a humanidade inteira.

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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