Corpo e Alma

Corpo e Alma

Por | 2018-06-16T19:58:07+00:00 21 de dezembro de 2017|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Corpo e Alma (Teströl és Léletröl/On Body and Soul) (Drama/Romance); Elenco: Géza Morcsányi, Alexandra Borbély, Réka Tenki; Direção: Ildikó Enyedi; Hungria, 2017. 116 Min.

Premiado com o Urso de Ouro de melhor filme no  Festival de Berlim 2017 e representante da Hungria na corrida ao Oscar 2018 “Corpo e Alma” da cineasta Idilkó Enyedi é uma mistura da jornada entre a conexão da alma com o corpo físico e o processo de constituição do amor entre duas pessoas, e um soco no estomago sobre a nossa falta de tato e auto-conhecimento em lidarmos com o nosso estado primitivo de encarnação. Ao mesmo tempo em que é um poema que mescla realismo, naturalismo e romantismo e nos leva a um passeio imagético cru e silencioso sobre o nossos cotidianos em nossas relações (com os outros e conosco mesmos).

Mária (Alexandra Bóbely) é uma inspetora de qualidade que vai trabalhar num matadouro de bois. Endre (Géza Morcsányi) é o diretor financeiro da empresa. Os dois são estranhos à sociabilidade. Endre é recluso em seu escritório, de onde vigia o comportamento de seus funcionários. Mária, ligada no automático, é silenciosa e exigente e tem questões sérias com toques entre pessoas. Até que uma substância química responsável por acasalamento de animais desaparece dos estoques da empresa e uma investigação é aberta. Quem entrevista os funcionários é a psicóloga Klára (Réka Tenki) e a partir dessas costuras e dos encontros e desencontros do cotidiano, se descobre as conexões etéreas entre as pessoas, mais especificamente entre Mária e Endre.

O roteiro escrito por Idilkó Enyedi separa a alma do corpo. E através do sonho, usando metáforas geniais – a história de dois cervos numa floresta glacial – preconiza, ainda que, a harmonia/conexão entre corpo e alma traz felicidade e que, possivelmente, as catástrofes: solidões improdutivas e destrutivas, desistência da vida e afins, vêm da desconexão entre os dois. Corpo e Alma na obra de Ildikó Enyedi são duas coisas separadas, desconectadas em que, as almas se procuram e esse encontro, certamente, é o catalisador da harmonia entre corpo e alma gerando felicidade que advém do amor, é claro. Mas, sem pieguices. A tentativa é de trabalhar o processo de conexão entre duas pessoas.

O mote usado pela cineasta para falar de alguma coisa tão abstrata, usando aspectos tão concretos e analogias tão belas é o grande diferencial de “Corpo e Alma”. Dos filmes premiados esse ano em festivais e indicados de seus países à corrida ao prêmio máximo da indústria cinematográfica, vide: “The Square” (Suécia), “Verão 1993” (Espanha), “Barreiras” (Luxemburgo) os argumentos são as conexões e desconexões entre as pessoas em abordagens ternas, fugidias, reflexivas e fortes. E este é caso de “Corpo e Alma”. O ambiente no qual é contextualizado o filme é cruel, um matadouro. Mostrando a violência ‘natural’ (de natureza) da qual nos alimentamos, literalmente, e essa referencia é ao corpo.  Quanto a alma o longa apresenta o sonho como sendo seu mundo. A procura de uma alma pela outra e a conexão que promove entre dois corpos é o grande assunto do filme. No desencontro tem-se a tragédia, a vida que não funciona. No encontro, a felicidade.

Idilkó Enyedi está distante da telona desde 1999 quando dirigiu “Simon Mágus”. Nesse ínterim fez curtas-documentários, séries de TV. Agora voltou com força total e abocanhou o Urso de Ouro de melhor filme, o FIPRESCI e o prêmio do juri ecumênico, tudo isso só  no Festival de Berlim. No Camerimage, levou o Sapo de Ouro da fotografia para Máté Herbai, o de melhor atriz para Alexandra Borbély no European Film Awards, melhor filme no Festival de Sidney e o prêmio do público no Mumbai Film Festival e está na lista do pre-indicados ao Oscar 2018. Ou seja, bendito limbo, abençoada abordagem!

“Corpo e Alma” é um filme visceral, artístico, de abordagem poética e contundente. Imagéticamente forte e de conteúdo perturbador . É para quem gosta de filme/arte e tem um estômago. Até porque, Idilkó Enyedi não economizou nas cores, foi bastante enfática e e assertiva. O que é de se admirar é do longa ter chegado até aqui, em aceitação mundial, com uma pena tão forte. Mas, para quem tiver coragem e se habilitar, além de ser uma ótima pedida, é um desafio e vale muito mais do que pesa, e olha que pesa viu. Vaticinando: fortíssimo!

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

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  1. Rogerinho 8 de janeiro de 2018 em 15:48 - Responder

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