Entre Irmãs

Entre Irmãs

Por | 2017-10-21T03:12:42+00:00 21 de outubro de 2017|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Entre Irmãs (Drama);Elenco: Marjorie Estiano, Nanda Costa, Rômulo Estrela, Júlia Machado, Ângelo Antônio; Direção: Breno Silveira; Brasil, 2017. 135 Min.

O cinema nacional tem se mostrado de uma qualidade admirável, tanto em relação às abordagens das histórias, quanto nos quesitos técnicos (fotografia, trilha sonora, atuações etc.). Agora temos  uma obra literária de qualidade intitulada “A Costureira e o Cangaceiro” escrito por uma pernambucana, cidadã americana que fala da alma do sertão em inglês. Traduzido por Maria Helena Rouanet, a história criada por Frances de Pontes Peebles virou filme e encanta pela costura que Breno Silveira (diretor) e Patrícia Andrade (roteirista) fazem através da ternura num contexto árido e agressivo no sentido conotativo e denotativo.

Luzia (Nanda Costa) é uma costureira do sertão pernambucano que após um acidente de infância passa a apresentar uma limitação física. Cheia de energia e sem pudores, Luzia se transforma em uma mulher amarga e fria. Emília (Marjorie Estiano) é comportada, meiga e romântica contrastando com a dureza do sertão. As duas amadurecem e a vida se apresenta como madrasta que morde e assopra. A uma dá  a dureza da vida e o conhecimento do amor à outra todas as facilidades e a frieza da rejeição. O longa neste contexto discute a imposição da vida, a natureza humana, o equívoco das teorias, a questão das tendências naturais humanas e as normas sociais. E embrica aspectos históricos com o cotidiano pessoal; o cerne da ignorância e sua ligação com o preconceito, independente da formação. Trabalha com metáforas antagônicas que têm uma interseção subjetiva no cotidiano dos personagens. “Entre irmãs” é um filme com uma história muito bem contada que, em seus aspectos técnicos não deixa em nada a desejar.

As atuações de Marjorie Estiano de “Sob Pressão” (2017), Nanda Costa de “A Febre do Rato” (2011) e Júlio Machado de “Trago Comigo” (2016) como o cangaceiro Carcará, estão magistrais. A direção de Breno Silveira de “2 Filhos de Francisco” (2005) e “Gonzaga: De Pai para Filho” (2012) mistura o grotesco como o cândido, a natureza com as instituições normativas da sociedade, a ciência com o movimento aleatório da vida. Mas, a cereja do bolo é o roteiro assinado por Patrícia Andrade de “Nise: O Coração da Loucura” (2015) que arremata uma série de propostas (muito bem sucedidas) em 2 horas e 40 minutos.

“Entre Irmãs” é um filme que desconstrói certezas, um filme que trabalha com o conceito de destino, não o fatídico, mas o sonhado, desejado e construído pelo querer sem querer. “Entre Irmãs” é um filme que aborda a digital de alma e seus preços e imagetiza num contexto rude, a ternura, os segredos e os silêncios. Não é um filme sobre tristezas, sobre destinos malfadados, mas de amor e de fraternidade mesmo num contexto seco de afeto, que mistura o sagrado e o profano, que nos chama a atenção para a quebra de estereótipos e derruba as certezas e os estigmas. “Entre Irmãs” é tudo o que um cinéfilo que curte mistura de questões com boas atuações e tecnicalidades competentes pode querer. E vale mais do que pesa. Formidável!


 

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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