Koblic

Por | 2018-06-17T00:33:40+00:00 16 de outubro de 2016|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Koblic (Drama/Thriller); Elenco: Ricardo Darín, Oscar Martinez, Inma Cuesta; Direção: Sebastian Borensztein; Argentina, 2016. 92 Min.

Ambientado na década de 70 sob os resquícios de uma das ditaduras militares mais sangrentas da América Latina, “Koblic” dirigido por Sebastian Borensztein e roteirizado por ele e Alejandro Ocon contam a história de um capitão da marinha que deserta por não conseguir cumprir as ordens de serviço da época do autoritarismo em relação aos subversivos do regime político. A partir desse estopim o longa aborda os silenciamentos, a tensão, o poder arbitrário e suas consequências  na vida das pessoas num regime de exceção e depois dele.

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Koblic (Ricardo Darín) depois de desertar do serviço militar como capitão piloto da Marinha vai para as pradaria de Colonia Elena trabalhar como pulverizador de plantações e sob a proteção de um amigo. Age com discrição, mas toda interação humana deixa rastros e sendo procurado pelo serviço de inteligência, logo chama a atenção de Velarde (Oscar Martinez), o “coronel” e prefeito da cidadezinha. O ano é 1977, a ditadura já havia se encerrado, mas os resquícios dela continuam vivos, nas ações de administração, de exercício de  poder e no medo. E ainda gera consequências na vida das pessoas. Sebastian Boresztein consegue impor uma tensão e um silenciamento que extrapola a tela e invade a sala de cinema. A história não é contada ela é sentida.O trabalho de contar essa história com flashes e sem narrativa oral é brilhante. Exatamente como num regime de exceção onde nada se diz, mas tudo é percebido. Este é o grande trunfo do filme e sua consideração final é a de que, independente de se participar ou não, esta realidade muda as pessoas.

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A abordagem do tipo de punição dada aos subversivos nos remete aos métodos da ditadura chilena referenciados em “O Botão de Pérola” (2015). A abordagem das consequências de uma ditadura na mente e na alma do indivíduo  nos lembra “Pecados Antigos, Longas Sombras” (2014) cujo contexto são as consequências da ditadura espanhola. Sem dar nome aos bois e sendo visceral o diretor argentino Sebastian Boresztein de “Um Conto Chinês” (2011) e o roteirista Alejandro Ocon, mais conhecido por séries de TV local, dão conta do recado e contam um história forte, cujo empoderamento está no que não se diz: o medo nos olhares, o despotismo que passeia pelas ruas  sem precisar ser narrado, explicado, ou sequer, metaforizado.

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Ricardo Darín, que dispensa apresentações está magistral, juntamente com Oscar Martinez que faz uma dupla com uma química excelente. O que se destaca é a edição de Pablo Blanco, ganhador do Goya por “Las Brejas de Zugarramurdi” (2013) e Alejandro Carrillo Penovi de “O Clã”, pela forma com a qual contam essa história com associações de imagens. A  trilha sonora de Federico Jusid de “El Secreto de Sus Ojos” (2009) é uma perturbação incômoda de uma nota só que parece um zumbido de inseto que não dá paz, numa homogeneidade forçada que diz mais que um longo discurso.

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“Koblic é um excelente catalisador para se pensar direitos humanos e regimes de exceção e o quanto esses tentáculos invadem as relações sociais, profissionais e pessoais. “Koblic” é um desfile silencioso da vileza humana exercida com prazer para além de qualquer regime político. …..Ah! O cinema argentino!!!!!

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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