Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

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Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

Por | 2018-02-19T23:48:13+00:00 19 de fevereiro de 2018|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi (Mudbound) (Drama); Elenco: Jason Mitchell, Garret Hedlund, Jason Clark, Carey Mulligan, Mary J. Blige, Jonathan Banks; Direção: Dee Rees; USA, 2017. 134 Min.

Contando uma história que é um pool de narrativas, ambientado no Mississipi da década de 40 “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi” é uma produção eminentemente feminina. Baseado no romance escrito por uma mulher, tendo na trilha sonora outra mulher, cuja composição é interpretada, também, por uma mulher. Tem, ainda, em seu trabalho de cinematografia a assinatura de outra mulher. O filme é forte e a sua digital de alma está na sua tessitura: narrativas sensíveis de personagens diferentes que, estando no mesmo lugar e vivendo a mesma realidade, vêem coisas diferentes.

Mississipi de 1941 a 1945. Henry McAllan (Jason Clarke) compra uma fazenda no Estado do  Mississipi e para lá se desloca com sua família: ele, sua mulher Laura (Carey Mulligan) e duas crianças. Têm como arrendatários de sua terra uma família de negros cujo filho mais velho, Ronsel Jackson (Jason Mitchell) vai servir como sargento na Segunda Guerra Mundial e neste mesmo evento, o irmão de Henry, Jamie McAllan (Garret Hedlund) também serve, como piloto capitão, os olhares são de oposição. Após o término da guerra ambos voltam à sua realidade de outrora, com normas e regras entre negros e brancos, num ambiente em que a Klux Klux Klan ainda tem seus tentáculos e que, um deles é o próprio pai de Jamie, Pappy McAllan (Jonathan Banks) cada um, a partir de suas redes de significação, depois de ter estado num espaço/tempo em que essas ‘normas’ não eram tão engessadas, começam a viver suas vidas e ter problemas.

Depois de “Mississipi em Chamas” “Mudbound” (no original) é um filme que vem tocar na mesma ferida, sendo que, a perspectiva é dada por dentro, fazendo conexões com o cotidiano de cada um. Se em “Mississipi em Chamas” a dupla de investigadores vem de fora mexer no status quo local, em “Mudbound” a desestabilização se dá por insatisfações dos próprios autores  de suas histórias, participantes da comunidade. O longa de Dee Rees é uma mistura de  perspectivas que se cruzam e se chocam.

Baseado no romance de Hillary Jordan “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi” é roteirizado por Dee Rees de “Pariah” (2011) juntamente com Virgil Williams de “Mentes Criminosas” (série de TV). Indicado a 4 Oscars: roteiro adaptado, fotografia, canção original e atriz coadjuvante para Mary J. Blige, e ainda, vencedor de outras 27 premiações mundo afora, o longa tem na sua produção o grande diferencial. Na trilha sonora a cantora Tamar-Kali, que dá um show;  a canção original “Mighty River” foi composta por Mary J. Blige com outros dois parceiros e é interpretada por ela. A fotografia é assinada por Rachel Morrisson de “Cake: Uma Razão Para Viver” (2014) e que, também,  dirige a fotografia de “Pantera Negra” (2018) e que simplesmente nos coloca num paraíso e num inferno, ao mesmo tempo, de cores e nuances muito bem trabalhadas. Mas quem se destaca mesmo é Mary J. Blige que atua, canta e compõe, também conhecida pela trilha sonora de “Vidas Cruzadas”.

“Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi” tem como eixo condutor a história de Ronsel Jackson, interpretado por Jason Mitchell de “Detroit em Rebelião” (2017) e a partir dela se traça múltiplas formas de ver uma mesma coisa, muito bem colocado no poster de divulgação em que cada ponta tem seu lado oposto. É um longa-metragem rico em aspectos mas, mais do que isso tem uma forma genial de contar essa história. “MudBound” é um cruzamento de “Mississipi em Chamas” e “A Cor Púrpura” no que diz respeito a abordagem. É uma produção Netflix que está em cartaz somente nos cinemas, por enquanto. E é um dos indicados ao Oscar que merece estar lá, não só pelo seu conteúdo político como pela sua arte cinematográfica.


 
 

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

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