No Intenso Agora

No Intenso Agora

Por | 2017-12-14T19:47:21+00:00 14 de dezembro de 2017|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

No Intenso Agora (Documentário/História); Direção e roteiro: João Moreira Salles; Brasil, 2017. 127 Min.

“Não basta se contentar com as imagens que se vê, tem que entender quem fez e em quais circunstâncias foram feitas” (Eduardo Coutinho)

João Moreira Salles dedica seu documentário que passeia pela seara da politização em vários níveis, ao mestre do documentário brasileiro Eduardo Coutinho, de quem foi editor de longa data. O cineasta fez, com sua colcha de retalhos de imagens de arquivo, um passeio pelos movimentos de esquerda da década de 60 e seus resultados, ancorado em uma narrativa pessoal através do seu olhar, elaborado a partir de suas redes de significações. O Patchwork possui registros dos primeiros momentos da revolução cultural na China em 1966, através da viagem de sua mãe à terra de Mao Tsé-Tung, dos protestos de maio de 1968 em Paris, de manifestações no Brasil em plena ditadura militar e registros da invasão de Praga e outros. Analisa as produção imagética e suas possibilidades de leitura a partir das circunstâncias de produção, os caminhos da esquerda no eventos e os usos que a direita fez/faz das movimentações da esquerda. Tudo isso com uma narrativa em off, mansa e poética.

O que tem de dissonante no documentário de João? É um burguês – politizado, diga-se de passagem –  analisando poética e livremente, sem nenhuma conexão partidária, os movimentos revolucionários contra a direita, versando sobre suas táticas e estratégias sentado do outro lado da mesa. João procura desenvolver um olhar humano, quase isento (se isso for possível), de cineasta que analisa o olho da câmera e que, com a distância histórica que o tempo proporciona avalia os aspectos poderosos e os frágeis dos movimentos, pontuando a ascensão e decadência de um dos líderes do movimento parisiense Daniel Cohn-Bendit e mostrando sutilmente os usos da direita. Quando faz a jornada afetiva de olhar a China pelo olhar de sua mãe, ao mesmo tempo em que pontua as diferenças de mundos entre o de sua mãe e aquele ao qual aborda, joão traça um mosaico de nostálgico de amor sem deixar de ser crítico e de enfatizar as diferenças culturais e políticas.

A direção e o roteiro ficaram por conta de João que faz do longa uma obra aberta a análise imagética que perscruta sua condição de produção, asseverando a premissa de que ‘nem sempre se sabe o que se registra’ mas que a contextualização a posteriori nos permite ter uma noção do poder da imagem. O destacável na obra é sua composição magna,  as imagens de arquivo – várias e de qualidades diferentes – e o viés que se dá a elas na produção cinematográfica. E mais, a contramão dessa produção. Comumente tem-se europeus falando dos trópicos ‘lendo-nos’ através de suas redes de significação e de seu lugar de poder. Neste caso temos o oposto, os trópicos com sua forma ‘caliente’ de ver  e de ressignificar aspectos analisando a partir de nossas redes de significação, de nossa  forma de ver com uma mistura política e pessoal, numa salada gostosa de produção de conhecimento cotidiano através de olhares de registros mortos, de momentos cristalizados. Quanto a trilha sonora assinada por Rodrigo Leão é terna, suave e nostálgica, amorosa até e foi premiada no Cinéma  Du Réel;  pelo conjunto da obra o longa recebeu Menção Especial no Santiago International Film Festival (SANFIC).

“No Intenso Agora” não deve ser visto como imagens estanques coladas por uma narrativa. Elas são produção de alguns – vários – realizadas sob determinadas circunstâncias e foram conectadas ali com um propósito cujo título dá conta de registrar. Esse, possivelmente, seria o lastro que Eduardo Coutinho usaria para entender o longa. Independente da forma com a qual cada um vai assistir ao longa ele merece ser visto e revisto. Logo, é artigo para constar na videoteca de casa. Seja porque traz como simbologia a elite analisando os movimentos de esquerda; seja porque é História com “H” maiúsculo misturada à história pessoal do cineasta. “No Intenso Agora” é uma aula sobre como olhar para uma produção imagética e vale o quanto pesa.

 
 
 

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

Deixar Um Comentário