O Insulto

O Insulto

Por | 2018-06-16T19:53:53+00:00 8 de fevereiro de 2018|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

O Insulto (L’Insulte) (Drama); Elenco: Adel Karam, Kamel El Basha, Camille Salameh, Diamand Bou Abboud; Direção: Ziad Doueiri; Líbano/Bélgica/Chipre/França/USA, 2017. 112 Min.

“Ninguém tem o monopólio do sofrimento”

(Ziad Doeueri e Joulle Touma)

Como falar sobre a situação da palestina no mundo e ser ouvido? Como falar sobre o setembro negro (1970/1971), a invasão de Damour em 1976 sem interrupções? Como falar sobre os equívocos de quem nasceu sobre a égide de conflitos? Como falar que tudo começa com algo insignificante  que toma proporções gigantescas? Como mostrar que somos irmãos e que esses conflitos são em família? Como falar que o que sana tudo, é também, uma pequena atitude silenciosa? e como, mais uma vez, insuflar a esperança de forma inteligente e sem romantismos? Ziad Doueiri consegue achar essa fórmula e a pôs em “O Insulto”, a primeira indicação do Líbano a um Oscar. A partir de uma experiência pessoal Zoueiri e a roteirista Joulle Touma que foram criados em lados opostos nas linhas ideológico/política do Líbano fazem uma viagem de troca de lugares e contam uma história com costuras de camadas que merecem um olhar demorado.

Tony (Adel Karam) é um mecânico líbio cristão, morador de uma comunidade que tinha como prestadores de serviços refugiados palestinos dos assentamentos próximos. Um dia lavando a sacada de sua casa derrama água num desses trabalhadores que  estava embaixo. Era o responsável pelas obras da região Yasser (Kamel El Basha) que vai até seu apartamento oferecendo-se para fazer o conserto da calha. Proposta negada de forma veemente, insulto  trocado de volta. A confusão estava armada. O vai e vem no pede e não  pede desculpas, a proporção foi tomando ares de conflito extra-territorial incluindo os judeus e os árabes, numa metáfora competente sobre o início das guerras.

“O Insulto” vai na ferida, dá nome aos bois e não poupa ninguém. O longa metragem é uma benção política, humana, questionadora e esperançosa. Tecnicamente é um primor na costura do argumento que é discutir as questões dos conflitos no Oriente Médio a partir do cotidiano de gente comum, que são os que compõem as sociedades conflituosas. Quando coloca como estopim uma situação banal, inscreve neste contexto as dores anteriores desses atores sociais que são vitimas de uma realidade de armistício. Herdeiros da guerra alheia são tão vítimas quanto autores das próximas celeumas, imiscuídos que estão no ódio. Quando mostra os dois lados da briga jurídica como sendo o mesmo sangue metaforiza, brilhantemente a questão entre judeus e palestinos. Quando realiza os consertos devidos dos dois lados, mostra que é que com muito pouco que se resolve as questões, o mesmo pouco com o qual começou. E que o mesmo pouco que produziu o ódio, produz afeto.

Ziad Doueiri é um libanês de Beirute que foi estudar nos EUA e mora na França. Com esse distanciamento e com os pés nas questões de seu povo, ousou falar da pedra no sapato que são os conflitos ideológicos locais. Conhecido por “Atentado” (2012) e tendo no currículo ter trabalhado com Tarantino em “Pulp Fiction”(1994), Ziad Doueiri traz o olhar de fora e incomoda. Ganhador de prêmios no AFI Fest, no Palm Springs International Fil Festival e no Festival de Veneza, em casa não recebeu uma premiação dentre as nove categorias a que estava indicado no Festival de filmes do Líbano. Escolhido para representar o país no Oscar 2018 o filme se inicia dizendo que as ideias ali contidas não são compartilhadas pelo governo libanês e que são de inteira responsabilidade do cineasta.

Não somos o que a vida faz conosco, e sim o que fazemos com o que a vida faz conosco. Com essa mensagem bem marcada “L’Insulte” (no original) é um diamante político entre os filmes estrangeiros que disputam o Oscar na categoria. O longa, além de mapear os caminhos dos conflitos traz uma mensagem de reconhecimento de culpa pela influência natural de um ambiente em conflito permanente, e de esperança. Não uma esperança romantizada, piegas, mas aquela lógica, com os pés no chão levando em consideração os prós e contras, que leva em conta as falhas humanas e o merecimento de paz. Pela mensagem, pela abordagem primorosa e pela ousadia, que venha o Oscar! Sensacional!!!

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

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