O Rei do Show

O Rei do Show

Por | 2018-06-16T19:57:45+00:00 25 de dezembro de 2017|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

O Rei do Show (The Greatest ) Showman) (Biografia/Drama/Musical); Elenco: Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Keala Settle, Zendaya; Direção: Michael Gracey; USA, 2017. 105 Min.

Do que é capaz o cinema? Essa é uma pergunta que devemos nos fazer de vez em quando. Em o “Rei do Show” Phineas Taylor Barnun (1810-1891), famoso por ser o pioneiro do Show Business, apesar de ter sido contemporâneo do Buffalo Bill (1846-1917) que também foi um muito bem sucedido empreendedor de shows (com outra temática, é claro) é içado a categoria de vencedor venerável, e até , um tipo muito pessoal, de herói. P. T Barnun é o mais evidente na História do Show Business por ser o primeiro, aparecer mais e diversificar em muito suas atividades alcançando um público mais abrangente. O que Michale Gracey faz é pinçar um recorte de qualidades  de Barnun, a ousadia e persistência, e vesti-la da roupagem de empreendedor e grande incentivador da inclusão e do postulado de igualdade entre as pessoas. Com “O Rei do Show” P. T Barnun adentra o portal da sétima arte como produtor de espetáculos e é apresentado ao público do século XXI dentro do formato do que melhor sabia fazer…shows. O longa é uma espetáculo de música e dança que faz uma viagem pela vida do showman competentemente.

Quanto ao cinema,  havia uma época em que para ser ator era preciso saber dançar, sapatear, cantar, dublar, fazer mímica, ter uma série de habilidades para além de atuar. Havia que se ser polivalente. Até que o Star Sistem foi se atualizando e as habilidades foram sendo minimalizadas em seus critérios. Hoje quem tem essa multifacetagem têm um diferencial em relação aos demais. E nesse pacote encontramos Hugh Jackman, Anne Hathaway (Os Miseráveis/2012), Catherine  Zeta-Jones  e Renée Zellwegger (Chicago/2002), entre outros atores da geração atual. Essa é a era de musicais que desde “Cabaret” (1972) se renovou com outra roupagem, diferente dos filmes protagonizados por Fred Astaire, Ginger Rogers, Gene Kelly e Julie Andrews, para falar de alguns. Com um aproach mais sexualizado como “Os Embalos de Sábado à Noite” (1977) e “Flashdance: Em Ritmo de Embalo” (1983); com assuntos do cotidiano como em “Footloose: Ritmo Louco” (1984); ou tudo isso junto como em  “Chicago”(2002) os musicais se diferenciaram dos ‘antigos’ que tinham como chavão a procura do príncipe encantado como em “Sete Noivas para Sete Irmãos” (1954) ou “A Noviça Rebelde” (1965) e se tornaram contemporâneos e conquistaram um público novo, incluindo animações como “Frozen: Uma Aventura Congelante (2012) e “A Pequena Sereia” (1989). “O Rei do Show” se encaixa neste espectro. Com atores multifacetados e atuações espetaculares, o longa-metragem tem uma excelente qualidade cinematográfica e seu tema é atual, mesmo sendo um filme de época, que remonta à primeira metade do século XIX.

A história é baseada na vida de P.T Barnun (Hugh Jackman) que, vindo de uma família simples e tendo que mostrar ao sogro que conseguia sustentar sua família, teve a brilhante ideia de ganhar dinheiro com o diferente e com a morbidez do fascínio humano pelo bizarro. Então montou um espetáculo em 1834 no qual apresentava anões, pessoas com gigantismo, hipertricose, sinais de nascença, disfunções hormonais, albinismo, gêmeos siameses e pessoas com deformações exóticas como chifres, caudas e afins. A abordagem é de inclusão, de incentivo a auto-estima, de fomento à persistência de enfrentamento dos pre-conceitos e de subversão á lógica da zombaria, quando se propõe os atores do espetáculo  se sustentem com o preconceito alheio e a curiosidade humana pelo bizarro. A partir daí o diretor Michael Gracey e seus  roteiristas convergem a história para uma vibração positiva de questionamento do preconceito e sua improcedência. Se tornando um instrumento inteligente de inclusão social e de subversão do conceito de diferente na vertical (melhor/pior) para o horizontal, para o de uma identidade distinta que tem o direito de existir, que tem que ser respeitada e com quem se aprende a ver de outro lugar.

Tecnicamente o filme é uma obra digna de aplausos como no melhor dos espetáculos. A história e sua abordagem é de Jenny Bicks de “Sexy and the City” com roteiro em conjunto com Bill Condon de “Chicago” e oscarizado por “Deuses e Monstros” (1998). O que arrebata é a trilha sonora e suas composições que são assinadas por ninguém menos que Benj Pasek e Justin Paul de “La La Land: Cantando Estações” (2016). A fotografia é de Seamus Mcgarvey de “Animais Noturnos” (2016) e “Cinquenta Tons de Cinza” (2015), dois filmes cuja fotografia é um espetáculo à parte. As atuações estão sensacionais. Hugh Jackman nos mostra, desde “Os Miseráveis”, que está para além do Wolverine. Zac Efron dentro do gênero desde “High School Musical” e “Hairspray: Em Busca da Fama” dispensa apresentações. Mas quem se destaca e rouba a cena é Keala Settle de  “Rick and Flash: De Volta para Casa” (2015) interpretando seu tema.  Tudo isso valeu três indicações ao Globo de Ouro: melhor filme musical ou comedia, melhor canção original e melhor ator para High Jackman. O filme/musical já abocanhou o prêmio de melhor filme verdade no Heartland Film 2017.

Então, como presente de natal, com uma estreia num dia inusitado – uma segunda-feira – o musical entra em cartaz no circuito nacional. O “Rei do Show” é um espetáculo para os olhos, os ouvidos e para a alma. O filme tem o poder de emocionar e fazer refletir sobre as diferenças além de fomentar a admiração pela luta cotidiana para se vencer dificuldades e  tornar o mundo melhor. Parece chavão de conto de fadas, mas não é, a produção de James Mangold conseguiu trazer essa postura para uma realidade de uma forma bastante assertiva e inteligente, não deixando é claro de ser um produto cinematográfico do gênero musical. P. T Barnun já foi um indivíduo fora dos padrões para sua época, o que o cinema faz é eterniza-lo de uma forma que ele jamais imaginaria e apresenta-lo para o público do século XXI, só que desta vez a atração é ele.  Vale duas vezes o ingresso.

 

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

Deixar Um Comentário