Projeto Flórida

Projeto Flórida

Por | 2018-03-14T12:57:31+00:00 14 de março de 2018|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Projeto Flórida (The Florida Project) (Drama); Elenco: Brooklynn Prince, Christopher Rivera, Aiden Malik Valeria Cotto, Bria Vinaite, Willem Dafoe; Direção: Sean Baker; EUA, 2017. 111 Min. #WillemDafoe #SeanBaker #A24 #DiamondFilms

Charles Chaplin dizia que brincando se diz muitas verdades, e é isso que Sean Baker faz quando passeia pelas brincadeiras de crianças na parte pobre da Flórida, comumente conhecida pelo entretenimento através da Disney World e da ciência com Cabo Canaveral – plataforma de lançamento de foguetes – a Flórida também tem seu lado mais carente e desprovido. “Projeto Flórida” traz para a telona a Flórida que ninguém ver. Indicado ao Oscar pela atuação de Willem Dafoe, o longa é uma grata surpresa ao descortinar a realidade dura da Flórida que o mundo não conhece. Outro filme a fazer isso com outro viés é “Moonlight” (2016). Mas, o longa de Sean Baker e do roteirista Chris Bergoch faz melhor, por que ciceroneia o espectador pelos problemas sociais daquele espaço através de crianças, suas visões de mundo, traquinagens e ingenuidade.

 

Moone (Brooklynn Price), Scooty (Christopher Rivera), Dicky (Aiden Malik) e Jancey (Valeria Cotto) são crianças que brincam e fazem travessuras no condomínio popular onde moram. Filhos de mães solteiras e com problemas sociais e estruturais sérios, as crianças não se dão conta de sua realidade. Mas, o roteirista e diretor a mostram. A crítica social vai das reações aos voos turísticos de helicópteros na área, passando por cima da pobreza com distância e  incômodo bastante presente – suas aparições são uma constante – às lojas Outlet da Disney dos bairros periférico; das dificuldades de sobrevivência às questões judiciais. “Projeto Flórida” fala do incômodo dos invisíveis, brincando junto com as crianças e faz pensar divertindo.

 

Sean Baker, que dirigiu o longa, é afeito a questões polêmicas e desconfortáveis com abordagem divertida, cujo pano de fundo da história sempre traz questões mais fortes. Foi assim em “Tangerine” (2015), filme rodado com celulares e que passeia pela rotina de travestis e trans no submundo da prostituição numa comédia irônica bastante reveladora sobre questões sociais e de sexualidade. Desta vez quem está por trás das câmeras é Alexis Zabe de “Luz Silenciosa” (2007), que torna o filme num primor de fotografia quando mostra um colorido lúdico numa realidade lúgubre. O filme ganhou o prêmio de filme do ano no AFI Awards e menção honrosa no Award Circuit Community e fez bonito.

 

Comumente conhecida pelo lugar do entretenimento, agora o estado tem uma mostra da Flórida que a Flórida não conhece. Tudo isso com graça, ingenuidade e uma certa contundência, dentro das dissonâncias que se apresentam a partir da inocência das crianças, que choca e que nos faz pensar. “Projeto Flórida” é uma crítica social muito bem feita na base do morde e assopra. Genial!

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

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