Relatos Selvagens

Relatos Selvagens

Por | 2018-06-16T23:36:28+00:00 22 de outubro de 2014|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Relatos Selvagens (Relatos Salvages). (Comédia/Drama/Thriller); Elenco: Ricardo Darin, Liliana Ackerman, Luis Manuel, Altamirano Garcia, Alejandro Angelini; Diretor: Damian Szifrón; Argentina/Espanha, 2014. 122 Min.

 Georg Simmel deve estar fazendo festa onde quer que  esteja. O sociólogo da microssociologia, que falava de cotidiano e da criação dicotômica, incoerente e parcial da nossa sociedade, em pleno século XIX, (pasmem!) e que, por conta disso, foi defenestrado da história da sociologia pela ousadia, leia-se audácia, tem hoje no cinema seu fiel aliado.

20141021143356447728uPara além dos filmes produzidos em toda a história do cinema, que tiram o véu da hipocrisia social, como ” Ligações Perigosas”, estreia essa semana “Relatos Selvagens” de Damian Szifrón, uma obra cinematográfica de questionamento social e da fruição da falta de controle. Um espaçotempo que dá  liberdade a seus viventes de fazerem aquilo que qualquer um de nós gostaria de fazer, como em “Um dia de Fúria”. Mais do que isso, há pelo menos uma história em que qualquer de nós se identificaria.

523154O arcabouço da película (sentido espanhol da palavra) são seis histórias limites, em que seus personagens optam por “rodar a baiana” e fazer exatamente aquilo  que acham condizente com o seu juízo de valor. As abordagens contextuais são sobre relações de poder, o instituído e o paralelo, o autoritarismos dos pais, as memórias de achincalhes de uma vida inteira, a educação protetora, o uso do outro, o abuso do poder público, as consequências de um ato impensado, a nossa incapacidade de interpretação, o autoconhecimento do nosso lado “bicho” e a mazelas da monogamia, tudo isso costurado pela vingança. Apresentado de uma forma inteligente e  fazendo o espectador rir da própria desgraça (pois em algum lugar ele se encontra), o filme é um convite a diversão pensante. Mas, a maestria está em dizer uma coisa para um público e outra coisa para outro tipo de público. Para quem não tem um olhar sociológico o filme é uma comédia de humor negro, e para quem o tem, é um espaço de reflexão espetacular. Damian Szifrón fez, sem mácula nem dolo, o que Georg Simmel tentou fazer e não conseguiu. Também, pudera, os tempos eram outros e naquela época,  não havia o cinema com todo o potencial que temos hoje e uma sociedade que estivesse disposta a questionar.

entretenimento-cinema-relatos-selvagens-almodovar-cannes-ricardo-darin-baixa-20140509-010-size-598Relativo à parte técnica e a contextualização com o mundo do cinema, a obra é um primor de argumentação. Não cansa, diverte, tem tomadas extraordinárias e um jogo de câmera pertinente com as histórias que conta. A trilha sonora é a metaforização do que a criação de normas e regras dicotômicas fazem conosco, nos ridicularizam e instituem o paradoxo. A assinatura é do argentino Gustavo Santaolalla, oscarizado por “O segredo de Brokeback Mountain” e “Babel” e conta ainda com músicas de Giorgio Moroder e David Guetta.

O-ator-Ricardo-Darin-no-poster-de-Relatos-Selvagens--size-598Tem como produtor ninguém menos que o cineasta Pedro Almodóvar e já abocanhou melhor diretor no festival de San Sebastian  (prêmio do público), melhor filme no Festival de Sarajevo , também do público – e a voz do povo é voz de deus –  e foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2014. As locações são um passeio pela Argentina, de Buenos Aires a Salta, passando por San Isidro.

042896Damián Szifrón que, além de dirigir também roteirizou, tem apenas três longas na carreira contando com “Relatos Selvagens” e já cumula quinze prêmios no total, dentre eles o prêmio de menção especial do FIPRESCI, e algumas outras renomadas indicações. “Relatos Selvagens” é o filme indicado pela Argentina a concorrer ao Oscar 2015, o que nos dá um plano B na torcida.

249806.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxPara fechar, essa produção argentina e espanhola, nos faz questionar a criação estrutural da lógica humana, perceber o quanto a hipocrisia é nociva, o quanto as coisas são relativas, e nos propõe a assumirmos a dicotomia, a doideira e o paradoxo que somos todos nós, sem véus e de forma salutar. E ainda, assevera o que Charles Chaplin dizia com muita propriedade: “A vida de perto é uma tragédia, mas de longe é uma comédia” Numa palavra? Brilhante!

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos como registro de mentalidade, nível tecnológico e momento histórico.

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