Saudade

Por | 2018-06-16T19:55:44+00:00 21 de janeiro de 2018|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Saudade (Documentário); Participações: Arnaldo Antunes, Deborah Colker, Milton Ratoum, Ruy Guerra, Zé Celso Martinez, Karim Aïnouz; Direção: Paulo Caldas; Brasil/Portugal/Angola, 2017. 77 Min.

Certas ousadias merecem registro. O cinema é um suporte imagético passível de todo e qualquer tipo de interpretação por conta de seu signo aberto sem blindagem e sem codificação. Os filmes são visto por cada um através de suas redes de significação e, portanto, são várias, milhares e até milhões de entendimentos sobre uma mesma coisa. E nesse contexto tão subjetivo, Paulo Caldas e o roteirista Giovanni Soares resolvem abordar uma das palavras mais subjetivas dos idiomas lusófonos – a palavra saudade – que somente existe nessa raiz idiomática. E faz um passeio pela conceituação, sensação, significação e etimologia da palavra em vários nichos da atuação humana: literatura, história, artes plásticas e cênicas, dança mostrando-nos as diversas facetas e possibilidades de interpretação semântica da palavra saudade.

Com um formato comum de documentário – através de entrevistas e depoimentos – Paulo Caldas de “País do Desejo” (2011) e “Deserto Feliz” (2007), juntamente com o roteirista Giovanni Soares fazem uma verdadeira divagação sobre as possibilidades de ver, sentir, traduzir, conceituar a palavra saudade. De Arnaldo Antunes à Zé Celso Martinez, de Deborah Colker a Ruy Guerra, de Milton Hatoun ao historiador Durval Muniz, da cantora Mayra Andrade ao cineasta Karim Aïnouz todos falam a cerca de como vêem e sentem a semântica da palavra. Com destaque para a atriz  alemã Julian Elting que, sendo a única convidada que escapa da origem etimológica da palavra, nos brinda com uma experiência sensacional com a palavra saudade que se traduziu na produção do entendimento a mesma.

Com uma fotografia primorosa assinada por Pedro Sotero de “Gabriel e a Montanha” (2017) e “Aquarius” (2016) o longa inspira saudades na tentativa da tradução da palavra. “Saudade” de Paulo Caldas é uma poesia imagética, um mosaico semântico de sentidos. E, portanto, seleciona público pela sua exponencial subjetividade. “Saudade” são 77  min de virar e revirar uma palavra-prisma, tentando ver/sentir/traduzir/conceituar sua semântica através da História, da música, das artes plásticas, das artes cênicas, da poesia, da literatura…. Em suma, uma aula para alma. Sem igual!

 

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

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