Uma Espécie de Família

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Uma Espécie de Família

Por | 2018-03-10T23:00:28+00:00 10 de março de 2018|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Uma Espécie de Família (A Sort of Family) (crime/Drama/Thriller); Elenco: Bárbara Lennie, Yanina Ávila, Daniel Ardoz, Paula Cohen; Direção: Diego Lerman; Argentina/Brasil/França/Polônia/Alemanha/Dinamarca, 2017. 95 Min. #Mostra SP #PandoraFilmes #UmaEspécieDeFamilia

 

O cinema ainda é um espaço de liberdade onde se pode expor  ideias, sejam elas polêmicas, politizadas/politizadoras, fomentadoras de questionamentos ou reflexões. E é tudo isso que “Uma Espécie de Família” traz através da dor de uma mulher que perpassa pela pobreza, a extorsão e a humanidade com justiça. Diego Lerman e Maria Meira lançam um olhar amoroso e, ao mesmo tempo, crítico sobre a pobreza e a necessidade de amor materno, quebrando o paradigma do amor egocêntrico que  só quer para si, enquanto questiona toda uma engrenagem de corrupção e de proteção a incapazes que se chocam e não funciona.

 

 

Malena (Bárbara Lennie) perdeu seu primeiro filho ao nascer e decide, então, adotar uma criança. Escolhe um povoado pobre no interior da Argentina. Lá, após o nascimento da criança se depara com um esquema de extorsão oficioso e as ações de combate do poder público que, ao invés de proteger o menor o deixa à deriva e os põe, novamente, nas mãos dos algozes. A partir daí se põe numa situação difícil em que tem que tomar uma decisão humana e definitiva. O longa é competente ao confrontar os aspectos de ingenuidade de Malena, crença na fraternidade e no amor incondicional com usura, ganância e uso da necessidade alheia como moeda e exercício de poder, tudo muito lentamente com ironia, metáforas inteligentes como a dos gafanhotos e o trocadilho do título entre a máfia da extorsão e a família diferente que se acorda a partir de uma noção maior de amor. O espectador decide de que forma ver o longa.

 

Créditos: Reprodução/Internet. Cena do filme Uma espécie de família.


 

O cineasta argentino Diego Lerman é conhecido pelo premiado “Refugiado” (2014) e tra uma leveza para a história que, embora ambientada num contexto hostil, põe a ênfase no amor de mães: aquela que não pode criar e da que pode e tem que abrir mão de algo pelo bem estar do filho. Mas questiona: será essa a solução? O que é o amor de fato? e quebra esse paradigma de amor egoista. Maria Meira (roteirista) de “El Karma de Carmen” (2014) traça um painel intrincado e inteligente dos aspectos abordados. A quatro mãos a dupla, que trabalha junto a  um tempo dá vida a uma história leve e intensa ao mesmo tempo. A atuação da atriz espanhola Bárbara Lennie de “A Garota de Fogo” (2014) está crível. Para completar o quadro o fotógrafo polonês Wojciech Staron fecha a tampa com um visual de cotidiano muito bem estudado e sem pirotecnias, com cheiro de quintal de casa, o que faz aponte entre a história e a possibilidade dela acontecer do nosso lado.

 

Ganhador dos prêmios Hugo de Ouro no Festival de Chicago (melhor filme) e o prêmio do juri no Sán Sebastian (melhor roteiro) “Uma Espécie de Família” é uma crítica social inteligente costurada com a pessoalidade da história que incita introspecção através de um passeio por conflitos internos e externos. O longa de Diego Lerman entra para o grupo dos filmes argentinos que falam muito mostrando muito pouco. Vale o ingresso!

 
 
 

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

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