Uma viagem extraordinária (L’extravagant voyage du jeune et prodigieux T. S. Spivet). (Ação/Aventura/Drama); Elenco: Kyle Catlett, Helena Bonham Carter, Judy Davis; Diretor: Jean-Pierre Jeunet; França/Austrália/Canadá, 2013. 105 Min.
Não é todo cineasta que tem a maestria de imagetizar o mundo de acordo com o olhar de uma criança, muito mais ainda, em se tratando de um altas habilidades (menino prodígio) e com muito ludismo e brilho. Jean-Pierre Jeunet consegue isso de forma brilhante, através do roteiro de sua autoria e da fotografia de Thomas Hardmeier. “Uma viagem extraordinária” é uma aventura para dentro da criança que um dia fomos e faz um inventário da forma como as crianças encaram a culpa, o mundo dos adultos, e como são magistrais.
O roteiro consiste na fuga de casa de um menino de dez anos para receber um prêmio do Smithsonian Institute por sua invenção “A máquina do movimento perpétuo”. E sentindo-se rejeitado pela família, diferente e subaproveitado, junta a fome com a vontade de comer, e leva seus pertences numa viagem, realmente, extraordinária. Uma jornada de exploração do mundo gigante com seus parcos conhecimentos da vida. Uma aventura em busca de autoconhecimento e valorização do que uma criança é capaz de processar. E Jean-Pierre Jeunet nos premia com muito mais que isso, nos mostra um painel de formas diferentes de ver o mundo e de atuar nele, o das crianças e o dos adultos.
A saga interna de T. S Spivet (Kyle Catlett) lembra “A invenção de Hugo Cabret”(2011) pela determinação e sede por conhecimentos, mas o cerne da história nos remete a “O pequeno fugitivo”, pois um dos motivos é o mesmo, pensar ter matado o irmão. E aí Jean-Pierre Jeunet insere uma crítica ácida a cultura americana de armas, com uma discrição francesa. A forma com a qual a criança é posta diante do mundo é dita pelos ângulos Contra-plongée ( de baixo pra cima) sempre numa posição de superioridade em relação a quem olha e fazendo angulações de proporcionalidades. E a versão 3D deixou essa sensação ainda mais real.
Monsieur Jeunet é um especialista meticuloso na angulação do olhar de ingenuidade, o mesmo de “O fabuloso destino de Amelie Poulain” (2001), pelo qual foi indicado ao oscar de melhor roteiro. Dirigiu, roteirizou e produziu “Uma viagem extraordinária”. E estiveram sob sua batuta Thomas Hardmeier de “Cumplices”(2009) e “Yves Saint Laurent” (2014) na fotografia, e Denis Sanacore na trilha sonora. O filme já ganhou dois prêmios pela fotografia, o Cesar e CST do Lumière Awards. E o custo estimado da brincadeira ficou em torno de trinta e três milhões de dólares e foi uma verdadeira aventura em vinte locações entre Canadá e USA.
O filme é uma ode a valorização da pureza de espírito, da coragem e da sinceridade. T.S Spivet é a representação de todas as crianças, quando é convidado a receber o prêmio pela invenção da´”máquina do movimento perpétuo” que no fundo no fundo, metaforicamente, venha a ser a própria vida, e quando é içado a categoria de gênio. E esse espetáculo para os olhos e para os ouvidos é feito com pequenas costuras, retalhinhos que se juntam e fazem uma grande colcha colorida de tessitura minuciosa e tênue. O filme de Jean-Pierre Jeunet é uma cartografia do olhar. Uma aventura linda pelos aspectos filosóficos, psicológicos e cinematográficos. Uma viagem de sonho pelo mundo real a partir do olhar de uma criança.
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