>>Dona Confusina & Dona Clemência#1

Dona Confusina & Dona Clemência#1

Por | 2018-09-29T22:03:28+00:00 31 de maio de 2018|Crônicas Cinéfilas|0 Comentários

Ilustração: Anna Jonko  –  https://www.flickr.com/photos/annajonko/

Confusina é uma senhora de 90 anos aposentada e cinéfila que procura atividades para fugir do Alzheimer. Tem uma amiga, também aposentada e cinéfila, D. Clemência de 65 com a qual vai ao cinema e com quem conversa sobre filmes. Numa dessas conversas…..

Por telefone:

– Alô, Clemência?!

– Sim.

-Tudo bem? É Confusina.

-Tudo bem, Confusina. E você? Qual a boa dessa vez?

– Vi Deadpool 2.

– Oi?! Aquele herói da Marvel que fala palavrão, zomba de todo mundo e é um péssimo exemplo?

– É, Clemência. Mas não é bem assim.

– Como, não bem assim? Desde quando você vê filmes de super heróis?

– Desde sempre, Clemência. Também tenho meus segredos. Eu lia os gibis para os meus filhos e agora me divirto com meus netos e bisnetos.

– Tá Confusina. E aí, o que achou?

– Não entendi muito bem. Mas uma coisa eu notei….

– O que Confusina?

– Você lembra daquele ator que fez aquela série de TV “O Homem que Veio do Céu” na década de 80?

– Não.

– O Josh alguma coisa.

– Não.

– Que fez “Anjos da Lei”?

– Não.

– Você está bem querida? Sempre foi rata de televisão e não lembra de nada. Olha o alemão, hein?!

– Sim, Confusina. Estou começando a achar que quem não está bem é você.

– Eu estou ótima e exercitando minha memória.

– Tá, Confusina. E daí?

– Daí que ele fez o Thanos em “Vingadores: Guerra Infinita” todo fantasiado de roxo para enganar os fãs e agora é vilão de Deadpool. Você não acha estranho?

– Que estranho, Confusina. O cara está trabalhando, ganhando uma fortuna. Estranho é você ficar tomando conta da vida dos outros e trocando as bolas todas.

– Ah! Não. Clemência, esse cara pode ser perigoso. Olha só, ele só trabalha em filme violento: “Assassinos na Estrada”; “Procurando Encrenca” “O Principal Suspeito”; “Meu irmão de Guerra”; “Um Plano Quase Perfeito”; “Fúria Urbana”; “O Homem Sem Sombra”; “A Garota Morta”; “Planeta Terror”; “Onde os Fracos Não Têm Vez”; “O Gângster”; “O Vale das Sombras” “Sin City: A dama Fatal” e por aí vai….eu acho que isso pode ser indício de psicopatia.

– Confusina, isso é indicio de sucesso. O cara é bem sucedido, é contratado pelos estúdios e só.

– Sei não, Clemência. A Marvel sabe que ele é o Thanos e o Cable ao mesmo tempo?

– Sabe, Confusina. Foram eles que contrataram.

– Disfarçado daquele jeito?

– Ah! Meu Deus! Confusina, você está me preocupando. Qual o seu problema?

– Nenhum. Eu só estou querendo entender porque alguém passa a vida inteira fazendo filmes desse tipo. Essa pessoa é quem deve ter problemas.

– Amiga, procura alguma coisa para fazer.

– Já arrumei. Olha só, nem a mulher dele aguentou, caiu fora.

– ???!!! Que mulher, Confusina?

– Ele não era casado com a Diane Lane de “Sob o Sol da Toscana”

– Confusina, pelo amor de Deus! O que tem a ver a vida pessoal do cara com os filmes que ele faz?

– Tudo. Você lembra daquele filme “A Viagem”….tudo está conectado.

– Confusina. Faz o seguinte: escolhe uma comédia romântica bem levezinha, me avisa que a gente vai juntas e conversa pessoalmente.

– Tá, Clemência.

Desligaram.

Dona Clemência pensa, então, consigo mesma – Confusina está cada vez pior. É melhor trocar o cinema pelo teatro.

Dona Confusina conversa com seus botões – Ainda bem que eu tenho a Clemência para treinar minha criatividade e fugir do alemão.

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

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