Glamour, lobby e diamante de 128 quilates

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Glamour, lobby e diamante de 128 quilates

Por | 2019-02-26T01:36:53+00:00 26 de fevereiro de 2019|Editoriais|0 Comentários

Quem vence uma premiação não é quem ganha o prêmio principal, é quem leva o maior número de lauréis para casa. Então, podemos dizer que “Bohemian Rhapsody” é o grande vencedor do Oscar 2019. Com 4 estatuetas: a de melhor edição de som (merecido); melhor mixagem de som (merecido); melhor edição (nem tanto, “Vice” foi melhor e explico mais adiante); e melhor ator (há controvérsias, Christian Bale foi melhor técnica e artísticamente) o longa saiu na frente de todo mundo, e possivelmente, foi a maior zebra da noite. O segundo melhor foi “Pantera Negra” com 3 estatuetas: a de melhor figurino (merecido, inclusive pela inovação); melhor trilha sonora original (merecido) e; melhor designer de produção (há controvérsias, “A favorita” foi, de longe, melhor no quesito em questão). Empatados com “Pantera Negra” estão “Roma” e “Green book“. Vamos aos dois à parte.

“Roma” é um filme mexicano, falado em espanhol, com uma fotografia belíssima e uma licença poética do cotidiano deslumbrante. O longa é uma declaração de amor a um tempo que não volta mais e um fomento de memória pessoal. Mas, um olhar da casa grande, uma ode ao status quo recheado de graça e ternura pelo dia-a-dia, pelos momentos de infância e de nostalgia. E isso é o que o disfarça. O longa levou 3 estatuetas: melhor fotografia (merecidíssimo); melhor diretor (Spike Lee foi melhor, tecnicamente); melhor filme estrangeiro (nem tanto), pois o prêmio de filme estrangeiro não é técnico, mas político. O Oscar é o palco/Olimpo em que outros países vêm trazer suas questões políticas, culturais e de sua História para o mundo, é uma vitrine de sua produção. O libanês “Cafarnaun” e o japonês “Assunto de Família” se encaixavam muito melhor nesse quesito. Logo, todo o resto atribuído a “Roma” é lobby.

“Green Book” é filme para ser visto com olhos de ver. Não é uma denúncia de racismo e sim a espetacularização de potencialidades de superioridade dentro de uma etnia castigada pelo preconceito e que, em um argumento bem fundamentado, serve bem à teoria da meritocracia. Um negro que tinha a capacidade de ser um excelente músico e que habitava o nicho dos brancos – mesmo sofrendo todos os preconceitos – atentem para a cena da lavoura, ela é chocante e vale um artigo científico. Esse filme levou 3 estatuetas, a de roteiro original -escrito por 3 homens brancos – (” A Favorita” tem um roteiro muito melhor) e; melhor ator coadjuvante para Mahershala Ali (Adam Driver de “Infiltrado na Klan” foi muito melhor e não estaria tirando o prêmio do cinema negro, tendo em vista o filme também falar sobre racismo e com muito mais propriedade e ser dirigido por um negro). Logo, mais um caso de lobby.

Para não falar só de dissonâncias também aconteceram os prêmios justos, embora poucos. O de melhor roteiro adaptado para “Infiltrados na Klan” de Spike Lee foi justíssimo. Mas, merecia mais, como o de melhor diretor, por exemplo. O prêmio de animação para “Homem-Aranha no Aranhaverso” também foi justo e o de efeitos especiais para “O Primeiro Homem” também. (pena que o parágrafo da justiça é pequeno)

Sobre as injustiças – aí chove cântaros – então, comecemos pelo final para não ficar tão indigesto. O prêmio de melhor filme é o principal da noite e presume-se que um filme bom tenha uma edição boa, um roteiro bom e um diretor bom. A categoria é técnica e artística – e depois que Michael Moore ganhou o Oscar de 2002 por “Tiros em Columbine” a premiação também se tornou um evento político (de ‘esquerda caviar’ mas, político confesso) – então o filme principal também passou a ser um recadinho para o governo americano. Os filmes que disputavam a 91ª edição do Oscar que preenchiam esses requisitos eram: “A Favorita” que é tudo isso e muito mais e; “Vice” que só recebeu o prêmio de cabelo e maquiagem ( parece piada), quem merecia esse prêmio é “Duas rainha” um primor em cabelo e maquiagem e que passou em brancas nuvens. O prêmio de melhor ator é, eminentemente, técnico. E nesse quesito Christian Bale foi muito melhor que Rami Malek e que ficou a ver navios. Quanto ao prêmio de melhor edição quem levou foi “Bohemian Rhapsody” que teve uma edição impecável, mas é um filme de musica, a edição foi recorte e colagem de imagens de arquivo com imagens de estúdio, foi floreamento e não a arte de contar histórias com imagens – a que a edição cinematográfica se propõe – e quem arrebentou nesse quesito foi “Vice” cuja edição estava a serviço de contar a história do roteiro. E que não levou. Outra injustiça inominável foi com Glenn Close de “A Esposa” que além de estar magnífica em sua atuação, abocanhou todos os prêmios da temporada, mas perdeu para Olivia Colman – não que Olívia estivesse ruim, ao contrário – mas se ela não ganhasse, o melhor filme da noite “A Favorita” (em termos técnicos) não levaria nenhuma estatueta para casa depois de ter sido indicado em 10 categorias. Logo, presume-se que o grande injustiçado da noite foi Yorgos Lanthimos e sua “A Favorita”.

Quanto a ser político no melhor estilo esquerda/caviar – aquela que é esquerda até onde lhe convém – se o fosse da fato teria ovacionado “Vice” que é um filme, eminentemente, político, sobre um político, sobre um momento da política dos EUA – a era Bush Jr. – com direito ao episódio do World Trade Center e todos os seus desdobramentos, incluindo aí, o surgimento do ISIS. Com atuações sensacionais, uma edição primorosa, uma narrativa criativa e inusitada que recebeu, debochadamente, o prêmio de cabelo e maquiagem. Os grandes super ovacionados são “Green Book” e “Roma” que, abordando assuntos delicados apresentaram argumentos superficiais, vagos, vazios e romantizados e, em algum momento, sendo um desserviço as causas contra as quais o mundo luta: a manutenção do status quo e a questão do racismo.

Mas, nem só de dores vive o glamour do cinema mundial, o que se destaca de positivo na premiação é o desagravo da academia em relação a toda discriminação com o cinema negro, com negros e de negros ao longo de sua História. O Oscar 2019 foi a noite da negritude, com justiça ou sem ela. Regina King ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante por “Se a Rua Beale falasse”. O filme de Spike Lee ganhou o prêmio de melhor roteiro adaptado. O prêmio de melhor filme de animação foi para “Homem-Aranha no Aranhaverso” que tem na equipe de direção o negro Peter Ramsey. “Pantera Negra” saiu ovacionado. O prêmio de melhor ator coadjuvante foi para Mahershala Ali e o prêmio maior do cinema foi para “Green Book”. Ou seja, para o bem ou para o mal, o cinema negro teve o reconhecimento de seu valor por parte da academia de cinema americana e, conquista seu espaço merecido.

Oscar é isso aí, uma festa com muito brilho, lantejoulas, purpurina com direito a um diamante amarelo de 128 quilates no colo de Lady Gaga. A premiação que iça a carreira de profissionais, tem viés ideológico e que, por ser uma indústria, se pauta mesmo é pelo valor comercial mais do que pelo valor artístico. E nesse contexto quem ganhou o Oscar de fato foi a Netflix. Agora é olhar para o Oscar 2020, já que os festivais internacionais mais importantes já começaram: O de Berlim já foi e o de Cannes vem aí. E toca o bonde que 2019 já deu.

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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