Human Flow – Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir

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Human Flow – Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir

Por | 2018-06-16T19:59:40+00:00 25 de novembro de 2017|Recomendados, Resenha cinematográfica|0 Comentários

Human Flow: Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir ( Human Flow) (Documentário); Participações: Peter Bouckaert,  Filippo Grandi, Princesa  Dana Firas (jordânia); Direção: Ai Weiwei; Alemanha, 2017. 140 Min.

“Quando vemos o planeta no espaço vemos um povo, irmãos que moram no mesmo lugar, que tem suas culturas, costumes, religiões; mas, basicamente, seres humanos irmãos. Mas, existem pessoas más na terra. Elas sim, deveriam ir para o espaço”

(Mohammed Faser – astronauta sírio aposentado)

Introdução

O documentário “Human Flow” – fluxo humano em tradução livre – merece muito mais do que uma simples crítica cinematográfica. A obra do artista, ativista e cineasta chinês Ai Weiwei é uma amostra da utilidade do cinema, não só como um grande veículo de massa, mas como uma grande ágora que fomenta assuntos em voga, seja incômodos, polêmicos, artísiticos, políticos ou econômicos. Mostra a liberdade poderosa desse espaço de mostragem de ideias que, literalmente, não tem fronteiras. O documentário de Weiwei faz uma coletânea de um ano de capturas imagéticas de refugiados por 23 países e 40 campos de refúgiados políticos através das câmeras de 12 cinegrafistas com instrumentos mistos, desde o celular, passando por câmeras de mão ou profissionais de alta tecnologia a drones.

O cineasta chinês vai da fronteira dos EUA com o México à Gaza, percorre o mundo inteiro registrando movimentos de migração, conceitua a palavra refugiado de acordo com os parâmetros das Nações Unidas e União Europeia e suas legislações sobre o assunto, e pontua suas questões atravessadas por trechos de poesias de escritores sírios, curdos e turcos. Entrevista ativistas, refugiados, autoridades oficiais: o primeiro ministro grego, a princesa da jordânia; além de pontuar com manchetes dos principais veículos de comunicação do mundo: Der Speigel,  Die Zeit, The Guardian, Telegraph, The Washington Post, Time Magazine, etc. E põe esses instrumentos a seu dispor para nos apresentar de forma humana e, não somente política, a realidade de quem não tem mais lar, pátria, identidade coletiva, cultural e, quiçá, pessoal.

O documentário alemão dirigido por um chinês remonta os movimentos de migração desde os africanos há 140 mil anos, no aspecto antropológico, até os os mais recentes através de uma narrativa doce que naturaliza o movimento, mas não suas causas. Se detém nos mais recentes tendo como referencial a 2ª Guerra Mundial e as legislações referentes à situação e do conceito de refugiado, redigida desde então, e aponta as contradições ao longo dos procedimentos que são realizados em diversos países em relação aos preceitos vigidos por essas leis. Quando de exilado político o indivíduo passa a condição de detido disfarçado de protegido. Weiwei vai da América ao Oriente Médio, da humanidade ao uso político da situação, do registro da dor à demonstração de respeito e afeto por essas pessoas, numa jornada cinematográfica de duas horas e vinte minutos.

O cerne da questão e as metáforas de Weiwei

‘Sou este mar, mas cheguei aqui numa tigela’

O documentário foi roteirizado por três pessoas, a artista Chin-Chin Yap, o jornalista do The guardian e diretor de comunicação do conselho de refugiados e cabeça dos assuntos referentes a migração no Institute  for Public Policy Research e Boris Cheshirkov do alto comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Com todo esse cabedal no assunto, a abordagem é, no mínimo, competente.

As metáforas que comparam esse movimento ao  das formigas e seus percursos são belíssimas, com takes realizados a partir de drones. E a abordagem regada a afeto e respeito são dignos de menção. Com destaques para duas cenas tocantes: a de Weiwei tentando consolar uma muçulmana que não se contém ao relatar sua história, de costas para a câmera e; a do cineasta trocando seu passaporte com o de um sírio, com a frase: “Eu te respeito”. Esse registro de intromissão num momento de tanta fragilidade é muito bem cuidado no documentário.

Outro aspecto importante no longa, é que ele não se detém na dor daqueles povos, mas alicerça as suas identidades culturais através dos escritos de seus poetas. Os refugiados são pessoas que, para além de suas necessidades proeminentes, pensam sobre suas questões e situações e fazem seu registro com docilidade, inteligencia e licença poética. Os refugiados não são somente boca, estômago e intestinos; não são uma bomba de responsabilidade civil e política, são seres pensantes inseridos em uma cultura, logo são um pedaço dela espalhados pelo mundo, têm alma. E a escrita desses poetas trazem a essência daqueles povos à obra cinematográfica, dando provas do cuidado e zelo da produção.

Dentro desse contexto de diferenças culturais, de caldeirão de misturas temos uma dúzia de olhares. Foram 12 cinegrafistas que fizeram a direção de fotografia, dentre eles o próprio Weiwei. Falamos de profissionais como o australiano Christopher Doyle de “Poesia sem Fim” (2016), o grego Koukoulis Konstantinos de  “Man at Home” (2017), o Belga Renaat Lambeets de “Tempo of Restless Soul” (2009), o chinês  Zanbo Zhang de “The Road” (2015) entre outros. Ai Weiwei é um artista plástico, designer arquitetônico, ativista social e cineasta. Hoje residente na Alemanha e conhecido pela trilogia “Beijing” (2003/2004/2005), cujo ativismo lhe rendeu problemas sérios na china.

Aqui, juntamente com o músico dinamarquês Karsten Fundal de “The Last Man of Aleppo” (2017)  mais conhecido por “Os Desajustados” (2015) e com os editores:  “Nils Pagh Andersen de “O peso do Silêncio” (2012) e Martin Hoffmann de “18” (2014) o trabalho foi içado à condição de obra prima de registro jornalistico/humano/histórico/político que conquistou prêmios relevantes mundo afora, só no Festival de Veneza, o longa abocanhou o CICT-UNESCO Enrico Fulchignoni Award; o Farplay Cinema Award; o Human Rights Film Network award (menção Especial); o Fundazion Mimmo  Rotella Award (menção especial); Leoncino D’Oro Agiscuola Award – Cinema for UNICEF. Fora indicações e seleção oficiais em outros festivais. lembrando que foi o filme de abertura da 41ª Mostra de Internacional de Cinema de São Paulo.

Considerações finais

A própria história de vida de Ai Weiwei se mistura com com o painel apresentado em “Human Flow”, a forma com a qual o filme foi produzido, com uma babel de nacionalidades, culturas e línguas entre sua equipe técnica. Por aí é facil entender o preciosismo na constituição da obra. Imigrante que conquistou seu espaço em outro país, em outra língua,  por perseguições políticas, Weiwei fala bem o dialeto do mundo e usa magistralmente o poder do cinema como veículo de massa, como possibilidade de linguagem para fazer o que sempre fez em seus nichos de atuação, criticar os desmandos e injustiças instituídos como ordem vigente. Mas o diferencial é a forma com a qual faz isso, docemente. Mostrando as mazelas humanas, mas apresentando o bálsamo: nós mesmos com outras atitudes. “Human Flow: Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir” é um mosaico histórico do movimento humano, pois foi através desse mesmo mecanismo que povoamos o planeta há 140 mil anos atrás. A diferença é que não haviam muros, cercas ou portões. O documentário é digno de figurar na cinemateca de cinéfilos que se prezem.

Sobre o Autor:

Amante da sétima arte e escritora por hobby

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