11 Minutos

11 Minutos

Por | 2015-10-08T13:54:15-03:00 8 de outubro de 2015|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

11 Minutos (11 Minut). (Thriller); Elenco: Grazyna Blecka-Koleska, Anna Maria Buczek, Agata Buzek; Direção: Jerzy Skolimowski; Polônia/Irlanda, 2015. 81 Min. #FestivalDoRio2015.

A criatividade humana não tem limites. Que bom! A formas de se dizer algo ou de se contar uma história, ou não conta-la são reinventadas todos os dias. O que você faria para imagetizar o caos, a falta de controle, a impotência diante da vida que passa, que escorre por entre os dedos? O que você faria para marcar o tempo com imagens sem se sustentar prioritariamente pelo relógio? Como você faria para dar noção de riqueza do que nos acontece e ao mesmo tempo de sua futilidade e insignificância? Jerzy Skolimowski fez tudo isso esticando 11 minutinhos banais na vida humana em brilhantes 81 minutos e o faz usando um viés, o ponto de vista – o lugar de onde se olha – e mais, metaforiza que nós e nossa história é um insignificante pixels numa tela em detrimento àquela analogia que diz que somos um grão de areia num oceano. E ainda dá um nó na cabeça de todos nós para dizer apenas tudo isso.

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Oito histórias se passam em nossa frente, sem começo, meio ou fim. Da mesma maneira com a qual as vemos na rua, no nosso cotidiano, sem saber nada mais do que ali está. O que elas têm em comum? O tempo. Passam uma pela outra no tempo e espaço. A do marido psicótico casado com uma atriz que vai fazer um teste para um filme com um diretor; a de um traficante usuário do produto que vende; a de uma jovem errante com seu cão; a do vendedor de cachorros-quentes; a de um velho desenhista; a de um estudante numa missão de confraria; a de um grupo de paramédicos. Não importa seus nomes, suas histórias, não importa o antes nem o depois. A questão é o agora. O que esses indivíduos estão vivendo nesses 11 minutos. Algumas pontuações orientadoras são postas: o pixels queimado, a TV que anuncia, quase que metafisicamente, “Você não conserta nada”, os diferentes pontos de vista e o imprevisto: da gota de tinta caída onde não devia ( que pretensão a nossa) ao escorregão que desencadeia uma tragédia.

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O “xis” da questão é de onde você olha: se detrás da câmera do Laptop, se através do olhar do cão, se através das câmeras de vigilância da cidade… São várias e diferentes as angulações que Skolimowski dispõe dos modos de ver e lugar de onde se vê. O filme é um espetáculo de abordagem de aspectos, sem muitos diálogos e quando os tem são fragmentados e desconexos. A maestria está na técnica de filmagem e edição/montagem. Filmagens do mesmo take em angulações diferentes mantendo o diálogo que os costura no tempo. Recurso similar usou Alejandro González Iñarritu em “Amores Brutos” (2000) em que uma história cruza com a outra no espaço geográfico e no tempo. Personagens que vivendo suas histórias  se esbarram uns nos outros dando a noção de acontecimento concomitante. Skolimowski faz o mesmo incessantemente. O que nos remete a edição de Agnieska Glinska que é de um primor e de uma precisão cirúrgica, para dar o resultado desejado. Mas para não deixar dúvidas Skolimowski coloca alguns personagens falando as horas e mostra um relógio analógico (de pulso)  e outro digital ( o monitor  das câmeras de segurança).

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Jerzy Skolomowski é etnólogo, historiador, cineasta e formado em literatura. Seu último trabalho foi “Matança Necessária” (2010). Sua forma de contar/não contar a história  do tempo é brilhante. Partindo do pressuposto de que somos nós quem inventamos a cronologização do tempo. A forma de mensuração do tempo não existe, nós a criamos para encaixar, sequenciar e prender os acontecimentos, que continuam soltos e em forma de caos. E Jerzy usa a linearidade inventada do tempo para quebrar todos os outros entendimentos, categorizações  e vícios estruturais que temos. E nos prende no tempo, nos deixando perdidos em um labirinto, em que passamos pelo mesmo lugar várias vezes. Com toda essa sanha de desconstruções “11 Minutos” ganhou menção especial do júri do Festival de Veneza (prêmio Vittorio Veneto), Melhor trilha para Pawel Mykietyn ( que é um outro relógio ) e melhor edição/montagem para Agnieska Glinska, do Festival da Polônia, além de indicado ao Leão de Ouro (Veneza).

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“11 Minutos” de Jerzy Skolimowski é uma viagem sobre o controle/descontrole, os imprevistos e a vida em si. Uma saga imagética em que a chave mestra é o lugar de onde se vê. Não é um filme para quaisquer olhos, ele passa mais pelo feeling do que pelo entendimento…E  o desconstrói. E ainda, nos diz, por silogismo, que nossa vida com toda a sua riqueza e complexidade não passa de um cocô de mosca na tela de um computador, e o faz com uma classe e uma categoria admiráveis. Genial!

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  • Festival do Rio 2015 – Mostra Panorama: Grandes Mestres

 

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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