Campo Grande

Campo Grande

Por | 2018-06-17T00:22:20-03:00 6 de junho de 2016|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Campo Grande (Drama); Elenco: Carla Ribas, Ygor Manoel, Rayane do Amaral, Julia Bernat; Direção: Sandra Kogut; Brasil/França, 2015. 108 Min.

O cinema nacional tem trazido verdadeiros diamantes para nossas reflexões sobre assuntos de suma importância para nossa convivência social e autoconhecimento. Em “Uma Noite em Sampa” o assunto é o fomento do medo e suas consequências no convívio social; Em “Ponto Zero” a abordagem é sobre o ponto de partida dentro de nós no qual a ficha cai e nos descobrimos responsáveis por nós mesmos. Agora é a hora de pensarmos sobre o que nos torna iguais, onde temos os mesmos anseios e defeitos, sobre dicotomias e semelhanças, sobre proximidades e distâncias. “Campo Grande” é sobre os territórios de duas classes sociais diferentes. E digo territórios porque o diferencial não são somente os espaços geográficos, mas as subjetividades que as caracterizam com seus códigos específicos. Em “Campo Grande” Sandra Kogut faz uma radiografia da interseção desses territórios – o do afeto – e seus atravessamentos.

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Ygor (Ygor Manoel) e Rayane (Rayane do Amaral) são duas crianças de oito e seis anos de idade, respectivamente, que são deixadas na portaria de um prédio no bairro carioca de Ipanema, área nobre da cidade, com destino ao apartamento de Regina (Carla Ribas). Que por sua vez, é uma mulher sozinha que está mudando de residência e tem uma filha adolescente, Lila (Julia Bernat). A partir do acontecido as duas procuram resolver a questão. Em primeiro lugar dar assistência imediata às crianças, depois procurar o conselho tutelar e, em seguida, sair à procura da família dos meninos.

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Nesse ínterim o que se desenha é o campo no qual todos somos iguais e temos as mesmas necessidades: a do  amor; o da necessidade de sermos amado e cuidados. Com o argumento do abandono como duas grandes vertentes – a de fato e a de corpo presente, Sandra  Kogut  e o roteirista Felipe Sholl fazem do longa-metragem um painel para falar desse amor, o fraternal, o maternal e o filial. E, ainda, para falar do mal que toma de assalto nossas sociedades, o medo do comprometimento.  Como catalizador disso tudo estão as metáforas sonoras, que  são muito bem postas; o barulho do mundo, que é muito maior que os diálogos e os acontecimentos, e que incomodam; a bagunça do mundo, com a desordem das obras e o caos urbano, que  potencializa o fato de se estar perdido. E misturado a tudo isso, o indivíduo,  fugindo de si mesmo e de sua fisiologia emocional.

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Por tudo isso, o longa nacional co-produzido com a França, foi premiado no Festival de Havana, no Festival de Mar Del Plata e no Málaga Spanish 2016 e exibido em vários outros festivais importantes mundo afora. Sandra Kogut, conhecida por “Mutum” (2007) e “Um Passaporte Húngaro” (2001) dirige uma história que tem um pé na realidade, apresenta o movimento de looping geracional de uma classe desfavorecida, de repetição de  abandonos e herança de dor, cheia de reentrâncias subjetivas e sociais sutis e inteligentes. Em “Campo Grande” o ouvido é extremamente importante é por ele que entra o incômodo e o conforto. Não esquecendo a atuação de Carla Ribas, cujos olhares e silêncios dizem mais do que os diálogos.

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“Campo Grande” é uma mistura de nuances dos filmes “Ausência” (2014), “Pixote: A Lei do Mais Fraco” (1981) e “Que horas Ela Volta? (2015) nos remetendo à dor do abandono que faz crescer, aos perigos do submundo que rondam uma criança desamparada e a falta que faz o amor de mãe.O longa metragem não só faz um passeio pela cidade entre Ipanema e Campo Grande, como também, entre as diferenças culturais/territoriais e as proximidades existentes entre John Lennon (Love) e a dupla sertaneja Leandro & Leonardo (Talismã). “Campo Grande” é sobre distâncias e proximidades, uma viagem pelos desentendimentos dos sentidos, pelas necessidades da alma e pelo lugar comum entre esses dois mundos tão díspares. Campo Grande não é somente o bairro carioca, é uma metáfora da vastidão dentro de nós a ser explorada, conhecida, entendida, compreendida e vivida.  Numa palavra? Magistral!

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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