Cobain: Montage of Heck

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Cobain: Montage of Heck

Por | 2019-01-05T00:43:23-03:00 20 de junho de 2015|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Cobain: Montage of Heck (Kurt Cobain: Montage of Heck). (Documentário/Biografia/Música); Com: Don Cobain, Kim Cobain, Jenny Cobain, Tracey Marander, Courtney Love e Dale Crover; Direção: Brett Morgen; USA, 2015. 145 Min.

Aos que pensam que ao ver “Cobain: Montage of Heck” estarão diante de mais um documentário de um músico e sua banda, se equivocarão redondamente. Brett Morgen inspirou-se no filme/Doc  “Pink Floyd – The Wall” de Alan Parker – a viagem na loucura de Roger Waters – em relação a forma, usos tecnológicos e recursos gráficos para contar a história de vida de Kurt Cobain, o líder da banda grunge Nirvana e criou uma obra que mostra fraquezas e talentos sem elogiar e sem desmoralizar.

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Em primeiro lugar um dos grandes diferenciais do documentário em relação aos demais é a intimidade. O uso que se faz das cenas de arquivo do cotidiano de Kurt desde criança até seus últimos momentos, a relação com Courtney e as imagens de Frances ainda bebê. Em segundo lugar a apropriação consentida das anotações do músico, de escritos sem importância como lista de afazeres e orçamentos, grandes desabafos sem nenhum véu e com uma carga de sinceridade assustadores, confissões de dor cruas arrancadas das páginas de uma espécie de diário esporádico, até os rascunhos de suas músicas mais famosas faz com que a presença da energia do músico seja mais forte que se fossem usadas somente imagens e narrativas  alheias, como a maioria dos docs . O uso dos desenhos de Kurt sendo complementados com animação – como em The Wall dão vida e continuação a uma suposta ideia não confessa.   Mas o que pontuou que o documentário seja o que é  foram as fitas de áudio, com gravações de sensações, relatos do dia-dia e de estado de espírito, além ensaios de seus arranjos e processo de suas composições. Foi a partir delas que Brett Morgen entrou em contato com a energia de Kurt Cobain e deu o título ao longa. “Cobain: Montage of Heck” é a vida de Kurt Cobain por ele mesmo vinte e um anos depois de sua morte.

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Brett Morgen é afeito a documentários e foi indicado ao Oscar por “On the Ropes” (1999) e tem no currículo também “Crossfire Hurricane” (2012) e  “Chicago 10” (2007). Ao fazer a analogia entre o muro que separa o indivíduo da interação social, da sociabilidade através da mágoa, em “The Wall” de Alan Parker, e o relato de vida de Cobain,  Morgen conseguiu, brilhantemente traçar um rastro do que foi a vida do ídolo da banda grunge dos anos 90. O fio condutor é sobre o  quanto as pessoas mais próximas nos atingem emocionalmente (os pais, os professores, os amigos, os amores) tanto em “The Wall” quanto em “Cobain…” e a forma de contar as histórias são tecnicamente parecidas, para casos parecidos com desfechos diferentes. Cobain  tinha  a mesma dificuldade de Roger Waters, pertencia ao mesmo meio e usava as mesmas linhas de fuga. Para potencializar, Morgen usou efeitos de  dissonância auditiva, de contundência imagética, de animação dos áudios  deixados por Kurt e com a edição nota mil de Joe Beshenkovsky, apresentou um produto diferenciado no gênero documentário que, intencionalmente, produz uma sensação de incômodo cinestésico, como se fôssemos nós (os espectadores) os dopados para a verdadeira fluência da vida e o exercício de genialidade e delineia um rastro de indícios que profetizam o final que hoje conhecemos. No quesito musical a compilação das músicas a serem usadas  foi feita de tal forma, que entraram  aproximadamente trinta músicas compostas por Kurt Cobain na trilha como” Smell Like a Teen Spirit” ,  “I hate myself and I Want to Die” e “Come on Death”, mas também, apresentações em shows e músicas de outros artistas como Paul McCartney com  “And I Love Her”. O doc sobre o Kurt Cobain foi exibido no Festival de Sundance (seleção oficial), Festival de Berlim 2015 e no SXSW no Texas e   ganhou o prêmio de melhor edição do Ashland Independent Film Festival.

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“Cobain: Montage of Heck” é a vida de Kurt pela versão do olhar de Brett sobre como Kurt via a si mesmo. O critério para a escolha dos entrevistados  foram ser as pessoas  mais proximas  de Kurt o suficiente para que independente de quem ele fosse “estivessem  presentes em seus últimos momentos” – palavras do próprio Brett.  Para tanto foram escolhidos e consentiram em estar lá: o pai (Don Cobain), a mãe (Kim Cobain), a irmã (Jenny Cobain), a primeira namorada (Tracey Marander) e um dos componentes do Nirvana (Dale Crover). O documentário nem glamourizou nem vilipendiou a imagem de Cobain, apenas foi  sincero, que era uma qualidade de Cobain que lhe trouxe a maioria de  seus problemas. A obra que Brett Morgen dirigiu e roteirizou é um documentário nu e cru da vida de Kurt Cobain.  É incômodo, doloroso,  contundente e chocante!

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 * editado em 22/06/2015

Sobre o Autor:

Crítica cinematográfica, editora do site Cinema & Movimento, mestre em educação, professora de História e Filosofia e pesquisadora de cinema. Acredito no potencial do cinema para fomentar pensamento, informar, instigar curiosidades e ser um nicho rico para pesquisas, por serem registros de seus tempos em relação a indícios de mentalidades, nível tecnológico e momento histórico.

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