Paterson

Por | 2018-06-17T00:50:22-03:00 21 de abril de 2017|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Paterson (Comédia/Drama/Romance); Elenco: Adam Driver,  Golshifteh Farahani, Dog Nellie, Rizwan Manji; Direção: Jim Jarmusch; USA/França/Alemanha, 2016. 118 Min.

Jim Jarmusch conseguiu com “Paterson” colocar na telona o processo de criação da poesia, analogizando com um cotidiano comum. O cineasta conhecido, pelo também poético “Daunbailó” (1986) faz, num recorte de tempo de uma semana, um passeio pelo modo de ver a vida e pelo mosaico de pensamentos de Paterson (Adam Driver). O filme é uma ode à poesia, ao talento natural de ver as coisas de diferentes formas, à vida e suas preciosidades mesmo com suas chaturas. “Paterson” é um certificado de que o cinema, com sua linguagem imagética e aberta também atua na seara do subjetivo extremo. E a palavra que define essa preciosidade é: simplicidade.

Paterson é um jovem e pacato motorista de ônibus da linha #23Paterson, do bairro de Paterson na cidade de New Jersey. Como se não bastasse tanta mesmice, sua rotina é quase que a de um portador de TOC (Transtorno Obssessivo Compulsivo), tudo na mesma hora, do mesmo jeito, o mesmo trajeto…mas a mente de Paterson, sua forma de ver o mundo e de fazer analogias de coisas cotidianas com as   possibilidades de expressão delas, é sensacional. Sua mulher, Laura (Golshifteh Farahani) é uma artista plástica que pinta a casa inteira, sonha em tocar violão e se aventura na cozinha com guloseimas. O casal do mundo da lua, felizes com sua rotina é sui generis. E ainda tem o cãozinho Marvin (Nellie) que só falta falar e por tal, ganhou a Palma Dog no Festival de Cannes. “Paterson” é uma preciosidade no registro do processo de subjetivação e para tanto foi cercado de cuidados em sua produção.

Em primeiro lugar o poeta de referência é o da terra (New Jersey) Williams Carlos Williams. Em segundo, o bairro de Paterson realmente existe e em terceiro, os poemas que vemos no roteiro a povoar a tela é de Ron Padgett. Escrito e dirigido por Jim Jarmusch o longa-metragem é para ser sorvido até a última palavra. E como se não bastasse, Jim ainda se aventura na seara da trilha sonora tendo como companheiros o produtor Carter Logan e Sqürl de “Amantes Eternos” (2013). Tudo em Paterson” merece atenção, pois é primoroso e  detalhista. Da direção de arte de Kim Jenning de “Ponte dos Espiões” (2015) à fotografia de Frederick Elmes de “Veludo Azul” (1986), passando pelo figurino, designer de produção e decoração de set. Um primor!

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Jim Jarmusch conseguiu tirar New Jersey do contexto da máfia em “Família Soprano” e da fama de maior concentração de tolos por metro quadrado deixada por “D. House” e a inseriu no panteão da glória dos poetas. O filme por todas essas nuances foi contemplado com sete prêmios entre eles: melhor filme da Associação de Críticos Online de Boston, no FEST International Film Fest e no IOWA  Flm Critics Awards, alem de outras 27 indicações. Em tempo: Adam Driver de “Silêncio” levou prêmio de melhor ator no Sant Jordi Awards e da Associação de Críticos de Toronto.

Sempre é bom lembrar que “menos é mais” e que “deus mora nos detalhes”. Essas duas premissas compõem a definição desta obra-prima (pode ser chamada assim) de Jim Jarmusch, esse cineasta americano com pegada de europeu. Vale o ingresso, a entrega emocional e uma cópia na videoteca de casa. Brilhante!

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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