‘Frankie’ e a noção de finitude

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‘Frankie’ e a noção de finitude

Por | 2020-02-29T23:51:24+00:00 29 de fevereiro de 2020|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

Frankie (Drama); Elenco: Isabelle Huppert, Marisa Tomei, Brendan Gleeson; Direção: Ira Sachs; França/Portugal, 2019. 100 Min.

Indicado à Palma de Ouro 2019, estrelado pela francesa Isabelle Huppert, dirigido por um americano e roteirizado por um brasileiro, “Frankie” versa sobre a morte e sua aceitação. Numa história de recorte intimista e cotidianista, o longa disserta sobre um final de semana da vida de Françoise Crèmont (Isabelle Huppert) que fora diagnostica em estágio terminal e resolve passar um final de semana em família em Portugal, com os dois maridos – o atual e o ex – os dois filhos – o natural e a adotada – e sua maquiadora e melhor amiga Ilene (Marisa Tomei). Sem pieguices o longa aborda o processo de aceitação e a leve tentativa de manipulação das vidas de quem fica por quem está indo, numa tentaiva de deixar as coisas a seu gosto. Um último exercício de nossa ‘humanidade’ mais sórdida. O que acaba por nortear o viés do roteiro…. A vida se impõe, é soberana.

O longa é suave, terno, lento e trata o assunto com naturalidade. Apesar da abordagem da finitude ser difícil para quem fica, é uma viagem obrigatória para quem vai. Então, resignação é apalavra de ordem e tudo é trabalhado no filme com muita dignidade, sem melancolias,cafonices ou religiosidades. O elenco é de tirar o chapéu, o roteiro é do carioca Mauricio Zacharias de “O Céu de Suely” (2006)e a direção é do americano Ira Sachs de “Deixe a Luz Acesa” (2012).

A finitude tem se tornado tema frequente nos filmes mais recentes, sempre com a mesma abordagem digna e natural. Foi assim em “Depois do Casamento” (2019) em que a personagem de Julianne Moore tenta deixar as coisas ‘ajeitadas’ antes de partir desta para melhor – entenda-se como manipular a vida alheia – e em “Como eu Era Antes de Você” (2016) em que a personagem de Emilia Clarke tem que dissuadir um tetraplégico de não cometer eutanásia. Ou seja, a morte tem sido abordada com mais frequência no cinema e com um viés natural – o que é fato – sempre com muita dignidade. O que ajuda o espectador a transformar isso em assunto para pensar, ao invés de fugir do tema, como é costume. E não é diferente em “Frankie”. Sem bajulações, nem charminhos a personagem aceita sua finitude e quem sofre calado são seus amigos e familiares. Afinal, é isso mesmo. Para quem vai é só mais uma aventura no desconhecido.

A abordagem é digna, inteligente, enxuta e a atuação de Isabelle Huppert , para variar, é de aplaudir de pé. Vale o ingresso e o mergulho nessa reflexão.

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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