>>A Natureza Selvagem de Eddie Vedder

A Natureza Selvagem de Eddie Vedder

Por | 2018-05-31T14:19:48+00:00 24 de Abril de 2018|Colunistas|0 Comentários

A trilha sonora retrata musicalmente um filme, tensionando uma cena de suspense, engrandecendo um momento aventureiro ou dando clima a um romance. A mistura da imagem e do som tem uma capacidade tão grande de evocar sentimentos em nós frente às telas que todo textão é pouco para esgotar o assunto. Porém, é justamente pra isso que estou aqui: para tentar mostrar a dimensão e a importância do trabalho de trilha sonora original em um filme.

E a trilha que escolhi para abrir essa coluna foi Into the Wild, álbum de Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, contendo sua contribuição para o filme Na Natureza Selvagem (2007). Escrito e dirigido por Sean Penn, o filme é baseado no livro de não-ficção de mesmo nome de 1996 de Jon Krakauer sobre as viagens de Christopher McCandless através da América do Norte e sua vida passada no deserto do Alasca no início da década de 1990. (Wikipedia)
A contribuição de Eddie Vedder* traz uma trilha sonora folk rock, que emoldura as belas paisagens naturais do filme. A sensação é como se o compositor pusesse o espectador em uma casinha de madeira nas montanhas, ao lado de uma lareira que proteja do frio que o protagonista sente no clima do Alasca, seu objetivo e destino final. O resultado que conseguiu com um número relativamente pequeno de instrumentos musicais impressiona pela expressividade e carga emocional.
Vamos ao faixa-a-faixa:
Em todas as músicas, é como se Vedder se tornasse o personagem principal da história. A música que inicia o filme é a última do álbum. Guaranteed traz o ponto de vista de alguém que já viu muito nessa vida, tropeçou, caiu e levantou; aprendeu a não se comportar da forma que é a convencional: o domínio das coisas materiais, das posses, das relações superficiais, da hipocrisia e da mentira. A canção é como o primeiro sol de uma manhã fria, iniciando a película suavemente.
Formando um interessante contraponto com o clima ensolarado de Guaranteed você pode sentir muito bem a sensação de uma solidão contemplativa nas notas graves do vocalista do Pearl Jam, quase sussurrada em Long Nights, embalada pela guitarra limpa e dedilhada. O clima é frio e sombrio e a solidão reina nesse trecho do caminho. É um momento de enfrentar os medos, de aceitar a mudança e buscar ser melhor. “Eu tenho essa luz que irei alimentar. Quem eu era antes, eu não lembro.
A instrumental Tuolumne, é simples e significativa, com um violão solitário cujos acordes sopram ventos no cabelo dos viajantes. Em sua versão da canção Hard Sun, de Indio (Gordon Peterson, 1989), a sensação de liberdade do nosso herói e seu “(re)nascimento” são retratados com um caloroso sol poente musical. Verdadeira música para pegar a estrada! A versão de Vedder tem poucas diferenças da original, com sua voz levando a canção a um patamar mais épico ainda.
Rise literalmente levanta os animos após a primeira das profundas amizades que Chris faz em sua trilha. Já com a alma repleta de chão, acompanhamos o devir do futuro Alex Supertramp, uma divertida conversa com uma maçã orgânica e a narração de sua irmã a respeito do outro lado da história, de como sua família lidou com sua repentina partida. A mensagem é clara: “vou me erguer, transformando erros em ouro“.
Chris está se erguendo Society é a canção que traz a mensagem central do filme e resume os pensamentos do personagem principal a respeito dessa “louca criação” que é nossa sociedade: gananciosa e egoísta. Ouvimos ela pela primeira vez após uma frustrada visita de Supertramp a uma grande cidade, onde enfrenta dificuldades e se vê completamente desconectado daquele mundo. O eu-lírico aqui se despede, esperando que a sociedade “não se sinta só sem ele“, pois ela representa tudo o que ele discorda e renega. The Wolf simboliza tanto o grito de liberdade de Supertramp, quanto o chamado da natureza selvagem a que ele se entrega. Essa faixa sem letra, traz um Vedder mais na pele de Alexander Supertramp do que em qualquer outro momento da trilha usa seu registro mais agudo para gritar do topo das montanhas.
A consolidação da ideia do isolamento no Alasca selvagem na cabeça de McCandless/Supertramp vem em No Ceiling. Tomada de um sentimento de liberdade e resolução, traz uma letra que fala daquilo que se aprende com as dificuldades da vida e como crescemos com nossas cicatrizes.
O álbum Into the Wild foi produzido por Adam Kasper e Eddie Vedder, gravado em 2007 em Seattle, Washington e lançado pelo selo J Records no mesmo ano. Conta com 11 faixas, sendo 9 delas parte do filme. Vedder ainda compôs mais 3 canções que foram lançadas como faixas bônus no iTunes: No More, Photographs e Here’s to the State. A trilha foi nomeada ao Grammy (Melhor Canção Escrita para Filme, Televisão ou Outras Mídias Visuais) e ganhou dois Globos de Ouro (Melhor Canção Original e Melhor Trilha Sonora).
*Michael Brook e Kaki King também são creditados como compositores da trilha sonora original do filme, sendo responsáveis pela orquestração.
Faixas:
  1. “Setting Forth” – 1:37
  2. “No Ceiling” – 1:34
  3. “Far Behind” – 2:15
  4. “Rise” – 2:36
  5. “Long Nights” – 2:31
  6. “Tuolumne” – 1:00
  7. “Hard Sun” (Indio) – 5:22
  8. “Society” (Jerry Hannan) – 3:56
  9. “The Wolf” – 1:32
  10. “End of the Road” – 3:19
  11. “Guaranteed” – 7:22

Sobre o Autor:

Um devorador de biografias e discografias. Androide paranoide. Músico e compositor naif. Situado em algum lugar entre um número de série e um registro geral.

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