‘O Paciente – O Caso Tancredo Neves’ e a redução da História

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‘O Paciente – O Caso Tancredo Neves’ e a redução da História

Por | 2018-09-12T13:28:24+00:00 10 de setembro de 2018|Crítica Cinematográfica|0 Comentários

O Paciente – O Caso Tancredo Neves (Biografia/Drama); Elenco: Othon Bastos, Esther Góes, Leonardo Medeiros, Otávio Muller, Paulo Beth; Direção: Sergio Rezende; Brasil, 2018.

Toda narrativa é uma versão. E não me canso de citar Manuel de Barros, ‘Toda versão é uma traição’. Assim como em “Polícial Federal: A Lei é para Todos” (2017) e “O Mecanismo” (2018), “O Paciente – O caso Tancredo Neves” é parcial e mais, um belíssimo álibe para humanizar o neto de Tancredo Neves ao invés de ser uma biografia do político. Aqui tem-se um recorte  passional de um momento bastante particular na vida do primeiro  Presidente eleito do Brasil (mesmo que por um colégio eleitoral) depois da ditadura militar. Com inserções de frases e signos semióticos que se conectam com o nosso contexto político atual, o longa é simplista, no sentido de redução.

Baseado no livro homônimo do pesquisador, médico e historiador Luis Mir, a obra dirigida por Sergio Rezende se detém nos últimos dias de vida de um dos mais importantes políticos brasileiros do século XX e seu viés é o de paciente. A abordagem é a questão médica e destaca as picuinhas entre os médicos com seus rompantes, duelos de egos e fogueira de vaidades. Com algumas pinceladas políticas bastante óbvias e vazias, como o fantasma imagético do neto de Tancredo que ronda todos os planos do núcleo do hospital e algumas falas sem contexto real para a época.

Existem ‘n’ possibilidades de se analisar uma obra cinematográfica. As mais óbvias são a qualidade técnica e sua inserção no contexto (que não pode nunca ser desprezado) pois nada é desconectado e estanque de sua produção. Comecemos então, pela contextualização e conexão com o nosso cotidiano. Mesmo o título focando no aspecto médico e tendo como recorte a saúde de Tancredo, alguns signos semióticos e falas do roteiro trazem mensagens sutis ao momento político atual. A onipresença de Aécio Neves (Lucas Drumond), que é apresentado nos primeiros dez minutos e reina soberano, preocupado, religioso e etc., num contexto atual de plena campanha eleitoral para uma cadeira na câmera dos deputados federais em Brasília; e as falas pausadas, pontuais e contundentes….O que não se vê não existe (dito pelo Dr. Renault)  e ….Tudo o que não quero é ser um presidente preso (dito por Tancredo). Numa remetência desnecessária a um contexto político atual, que não se sustenta. Afinal, se pretendeu abordar um momento na vida de um político vivido há 33 anos atrás, cuja realidade e contexto nada tem a ver com o cenário de hoje. A partir dessa premissa se pode considerar o seu público alvo. Quanto ao aspecto cinematográfico o argumento do longa é fraco com um roteiro pobre de diálogos no qual se salvam as atuações de Othon Bastos como Tancredo,  Leonardo Medeiros como Dr. Pinheiro Rocha; a direção de arte que reconstituiu bem a época e a fotografia de Nonato Estrela de “O Vendedor de Sonhos” (2016).

Sergio Rezende é conhecido por “Lamarca” (1994) e “Mauá – O Imperador e o Rei” (1999). Seu último filme foi “Em Nome da lei” (2016) uma ode ao poder judiciário e à Polícia Federal brasileiros. “O Paciente – O caso Tancredo Neves” é uma desculpa fraca para se abordar política de forma rasa no estilo novela-apelação. Nos discursos dos médicos há muito mais do fazer político gregário do que em toda uma obra que se pretendia versar sobre um dos políticos mais respeitados do país (em se tratando de Brasil isso é um evento raro). O longa perdeu a oportunidade  de mostrar com maestria a inteligência política de Tancredo Neves – independente de sua bandeira – e que poderia ser abordado mesmo num contexto médico.

“O Paciente – O Caso Tancredo Neves” não celebra Tancredo, tampouco é uma biografia, mas um instrumento político no sentido reducionista e apequenador e que tem como público alvo os menos politizados e fáceis de influenciar. Obviamente, tem todo direito de existir, assim como o espectador também o tem em  saber sobre seu viés de abordagem. Pífio!

 

 

Sobre o Autor:

Amante da sétima arte e escritora por hobby

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