‘O Silêncio dos Outros’ e o fomento à memória

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‘O Silêncio dos Outros’ e o fomento à memória

Por | 2019-03-04T19:16:03+00:00 4 de março de 2019|Recomendados|0 Comentários

O Silêncio dos Outros (El Silencio de Otros/ The Silence of the Others)(Documentário);Elenco:Maria Martín, José Maria Galante;Direção:Robert Bahar, Almudena Carracedo; USA/Espanha/Canadá/França, 2018. 96 Min.

“Que os porcos criem asas”( Maria Martín)

Introdução

Produzido pelos irmão Almodóvar (Pedro e Augustin) e dirigido pelo americano Robert Bahar e pela espanhola Almudena Carracedo “O Silêncio dos Outros” é um documentário que versa sobre a ditadura de Francisco Franco na Espanha (1939-1975) e suas atrocidades a partir do olhar das famílias das vítimas e de suas necessidades. Seja a de enterrar seus mortos ou encontrar seus desaparecidos. O ponto de partida é a lei de anistia decretada pelo parlamento e o pacto de esquecimento. Uma das variantes da abordagem são as consequências desse esquecimento para a sociedade e a resistência daqueles que não querem esquecer.

Eivado de imagens de arquivo, depoimentos e da jornada do processo impetrado na Argentina para se condenar os torturadores – na Espanha a lei de anistia não permite a instauração do processo – os cineastas acompanham a saga desses resistentes. Costurado por um pouco de poesia – quando da representação artística das vítimas do regime e das cartas de Maria Martín às autoridades competentes quando da procura pelos restos mortais de sua mãe – a equipe de produção fez um excelente trabalho ao trazer à tona do que é capaz o ser humano que, ascendido ao poder com autoridade absoluta e não tendo que responder sobre suas ações extremadas, tende a fazer com quem pensa diferentes só para se manter no poder.

O cerne da questão

O coração da narrativa é a atitude de insatisfação e necessidade de justiça dos torturados por agentes do regime, de pessoas já idosas que foram privadas de conhecer/estar com seus pais e de mães que tiveram seus filhos sequestrados ao dar a luz. A condução dos roteiristas Ricardo Acosta, Kim Roberts, juntamente com Robert Bahar e Almudena Carracedo foi o de ouvir essas vítimas e acompanha-las em seu calvário de busca por justiça. E para não ficar a dever a quem não conhece a História, fizeram um pequeno apanhado do que foi a ditadura franquista, a apresentação dos que estavam sendo processados e as consequências do esquecimento: monumentos, praças e nomes de ruas homenageando a pessoas que cometeram crimes contra a humanidade. O período de abordagem é de 1966 a 2016, num trabalho primoroso que conta um pedaço da História da Espanha de forma quase didática e muito bem amarrada.

A Contribuição

Um dos aspectos poderosos e didáticos do documentário é a apresentação das imagens de arquivo da promulgação da lei da anistia em 1975 – a chamada lei do esquecimento – e o passeio pelas gerações que nasceram sob sua égide com escolas que não abordavam a questão em seus currículos (porque tinha que ser esquecida), com famílias que não falavam com seus filhos sobre o assunto, com gerações que cresceram sem saber dos fatos e, por conseguinte, não falavam com seus filhos. Os diretores foram as ruas perguntar para essa geração e para mais idosa sobre a questão e as respostas são surpreendentes. O objetivo do longa vem de encontro a isso e fustiga a lembrança e escarafuncha os porões do horror mostrando tudo: de cenas de tribunais, a exames de DNA; de exumação de corpos a depoimentos doloridos; da organização de reuniões de associações de vítimas a decisões da juíza argentina e do parlamento em mudar os nomes das ruas da Espanha a partir do movimento desses inconformados com a desumanidade. O longa tem uma hora e meia de recortes da História da Espanha e de radiografia da sordidez humana; de consequências dos desmandos de um regime totalitarista a nacos de justiça sendo feitos; de bordões dos porões do horror sendo ditos para que sejam contestados a registro de seus algozes caindo por terra depois de tanto tempo.

“O Silêncio dos Outros” além de fomento de memória dá incentivo a se lutar por justiça e deixa claro a importância de uma pasta de direitos humanos como um componente da estrutura política e de sociedade. O documentário é um artefato cultural de utilidade pública e de publicização do que não pode e não deve ser escondido nem esquecido.

A importância do documentário

Como um instrumento de subversão a uma ordem estabelecida de forma arbitrária “O Silêncio dos Outros” faz parte de um panteão de outras obras cinematográficas que não deixam barato os desmandos políticos relacionados a direitos e humanos, como: “Galeria F” (2017) “Trago Comigo” (2016); “Botão de Pérola” (2015); “Orestes” (2015) e; “Setenta” (2013) em se tratando de documentários. Em relação aos filmes, temos (para falar dos mais recentes): “Cachorros” (2017) e “Koblic” (2016). Esse movimento que o cinema empreende mostra sua importância na manutenção de memória e de informação, mesmo que a partir de um viés escolhido, que dê voz e que empreste seus ouvidos a quem nunca foi ouvido, aos que não tem poder político e, o pouco que têm é manipulado e posto no modo silencioso. Com o longa de Robert Bahar e Almudena Carracedo entendemos o processo de silenciamento e seus fins. Entendemos o porque uma população inteira se cala diante de atrocidades enquanto elas acontecem. Maturana* (1990) diz que enquanto estamos na ação não conseguimos entender seu contexto e muito menos nos situarmos nele quando aborda as diferenças entre erro e equívoco. Um filme tem o poder de num espaço de tempo curto sintetizar toda uma história, criar um viés de abordagem que ajude a entender diversas variantes de uma mesma questão nas quais sozinhos não teríamos tanto sucesso em conecta-las. E essa é a preciosidade de “O Silêncios dos Outros”. O quanto o silêncio de quem está a contemplar uma situação colabora com ela. Vimos isso no Holocausto em que uma sociedade inteira silenciou diante do que sabia que acontecia e a coisa se exponencializou. Vimos isso nos conflitos de etnias em Angola em relação ao mundo inteiro.

O documentário põe na berlinda o velho pensamento: “Se não é comigo, deixo para lá” e quando fazemos isso a coisa se agiganta de tal forma que um dia passa a ser conosco e não haverá ninguém com quem contar porque todos estaremos mergulhados na cultura do silêncio. Quem ganha com isso? o arbitrário. Todas essas questões e reflexões nos traz “O Silêncio dos Outros”. Pedro Almodóvar e Augustin Almodóvar, como produtores, são heróis da resistência ao viabilizarem uma obra que chafurda no baú da História de seu país, exercitam a audácia de irem contra a lei do esquecimento, de fomentar memória e trazer à tona esse pedaço da História como um painel sobre como o processo de cumplicidade silenciosa se dá. “O Silêncio dos Outros” é uma obra de suma importância nesse momento em que uma onda gigantesca de fascismo assola o planeta com os movimento migratórios por conta de conflitos bélicos. O documentário é necessário e altamente recomendável. Ainda bem que o cinema tem seus ‘D. Quixotes’. Lutemos contra os moinhos…eles existem e sonhemos com porcos alados… eles são possíveis.

Referência bibliográfica:

*MATURANA, Humberto. Emoções e linguagem na Educação e na Política. Belo Horizonte: UFMG, 1990.

CURIOSIDADES:

  • O documentário “O Silêncio dos Outros” teve mais de 450 horas de filmagens acompanhando 5 pessoas com acesso íntimo durante 6 anos. A edição durou 14 meses.
  • O longa ganhou o Goya (o Oscar espanhol) de melhor documentário e foi duplamente premiado no Festival de Berlim com o prêmio do público na Mostra Panorama e com o prêmio do cinema pela paz.

Editado em 04/03/2019

Sobre o Autor:

Editora do site Cinema & Movimento e crítica cinematográfica

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